- Um lindo dia de primavera -

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Está uma tarde nublada neste domingo de novembro. A temperatura está agradável depois de alguns dias de calor mais parecido com o Verão. A Primavera é, de fato, uma estação feminina. Fascinante e imprevisível. Mas sempre fascinante.


Logo após o almoço, enquanto verificava, off-line, minhas caixas postais, resolvi escutar um pouco de música. Talvez devido ao nublado da tarde, escolhi sem muita precisão, de forma instintiva, Strauss, Fauré e Schumann nas belíssimas vozes de Kiri Te Kanawa e de Jessey Norman. Passei, portanto, por Morgen; Ruhe, meine Seele; Gretchen am Spinnrade; Du bist wie eine Blume, Après un Rêve, entre outras e divaguei. Canções lindas, vozes celestiais, orquestras maravilhosas, a sensação passageira de que nós, humanos, somos apenas isso: Beleza, Harmonia e que nunca colocamos os pés na lama.


Deixei o programa de e-mail aberto e escutei atentamente durante um bom período tudo o que escolhera. Mas, talvez pelo nublado do dia, não tenha sido o suficiente. Por isso, fui ao laser-disk player e coloquei um vídeo-laser que ganhei há algum tempo de uma ex-namorada. Bailarina clássica, ela sempre fascinou-me quanto ao porte, à aura misteriosa e ao que sem dúvida existe de similar entre os movimentos da dança e o vôo dos pássaros: infinitos turbilhões aéreos de Beleza.


Assim, coloquei o Romeu e Julieta, com música de Prokofiev, dançado por Alessandra Ferri, Wayne Eagling e o The Royal Ballet. Cenografia primorosa, orquestra incrível, regida por Ashley Lawrence no Albert Hall, Covent Garden, Londres.


Finalmente, a cena do balcão, o pas-de-deux... Virtuosismo puro, aliado à sensibilidade indescritível, dançada.


Alessandra Ferri surgiu, esplêndida. Fascinante, porque primorosa, porque mulher, bailarina e ave. Mas também gazela. Longos braços e longas pernas, pés em lindas pontas. Tecnicamente linda, sensualmente rodopiante. Dégagés perfeitos. Fouetés admiráveis.


Invadiu-me a Primavera, apesar do dia nublado; conquistou-me a mulher, por fascínio e por mistério.


Sim, a mulher, este ser bailarino, equivalente, para mim, também à água: vital, que limpa mas que afoga, que escapa e volta em chuva, que se molda ao que a contém mas espalha-se se perdidos os freios, se alargadas as margens, que se indefine definida em placidez ou em tormenta, em erosão ou em suave deitar-se por sobre a areia. Sim, a Primavera é feminima e aquosa. Foi quando ela, Julieta-Alessandra, saltou, em rodopios, como dentes-de-leão ao vento e como orvalho na noite, como tornado por sobre árvores e como suave brisa em suas vestes vaporosas. Mulher-flor quando ergue uma de suas pernas, em dégagé-en-arrière e, lançando seus braços-asas de mulher-cisne para adiante, ligeiramente desnivelados e com as mãos em atitude de quase benção, de quase súplica, apóia-se ao ombro de Romeu e, na ponta, gira 180 graus para, de frente, trazer a perna e elevá-la acima da própria cabeça, com o corpo inclinado para trás. Girassol delicado. Também, talvez, gazela melancolicamente feliz.


Mulher, mistério e ballet. Essência do Belo, à imitação de nuances. Contudo, este ser, já flor por nascimento, não precisa de reflexo nas águas. Basta-lhe apenas um movimento, uma dança, um abrir-se em rosa.


E faz-se a Primavera.


Uma estação feminina, mulher.


Que bom que o domingo deu em nublado. Divaguei. E sinto-me leve, em paz, graças à feminilidade da Primavera, graças à Mulher.




- José P. di Cavalcanti Jr. -










 
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