- Agradecer, é preciso! -

( A meus amigos da Casa no Campo )



Obrigado pela visita!


Contra um acompanhamento
no qual predominam as cordas e as madeiras,
com uma mão esquerda suave
na maior parte do tempo
e a direita
limitada a pouquíssimas notas
de uma melodia celestial,
o Adagio assai que ouço
do Concerto em Sol para piano e orquestra,
de Ravel,
e pergunto-me:
como é possível que música,
em colorido suave,
assemelhe-se a arco-íris?
Melancólico,
este movimento
também deve ser parte da senha para a placidez,
para a felicidade que
por acaso se precise encontrar.
Não o resolvi escutar conscientemente;
tenho, disso, certeza.
Os meandros do que não se vê
conduziram-me a ele
e, agora, sei esse fato porque
nos últimos dias,
após ter enviado uma mensagem
na qual muito revelava
do que se passava em minha alma naquele momento,
tive minha caixa postal abarrotada por respostas.
Sim,
respostas e respostas,
as mais variadas,
centenas delas,
todas contundentes, entretanto.
Vazia, assim, nenhuma.
Nenhuma que me levasse a crer
que minha voz se perdesse, sem eco.
E senti-me, pelas respostas, amanhecido,
limpo qual dobras antes escuras do mundo
de súbito banhadas por auroras.

Como lhes sou, amigos, grato por isso.

Encontrava-me, naquele dia,
com minhas mãos supinas,
quase pendidas,
e pude perceber que
nelas não se formavam deltas
pelos quais se perdessem as minhas marés.
Não, absolutamente não!
Pelo contrário,
senti em todas as respostas
o subir das águas
que me lavaram o peito,
o coração,
e que, evaporadas,
permitiram-me o caminhar como se andasse,
abençoadamente afogado,
nesse oceano invertido que são as brumas.
Transmutado pela generosidade alheia,
fui prisma, fui cores,
fui vibração concreta e abstrata.

Ah, Gide!
Que agora possam ser novamente saboreados
os frutos terrestres!

Nenhuma mensagem-resposta foi em vão,
independentemente das razões apresentadas.
Sem exceção,
Adagio assai, curiosamente.
Música, concerto em Sol,
todas,
Sol em concerto, arco-íris.
Portanto,
ainda que muito lhe sinta a falta, Quintana,
aqui
discordo que toda palavra escrita seja triste.
As que recebi,
radiosas,
não precisaram dizimar florestas.

E algo muito peculiar aconteceu em mim, então.
Lia-as e,
transportado,
delineava os rostos de quem mas enviava,
vislumbrava-lhes a silhueta frente ao teclado,
o recinto onde se encontravam,
a forma com a qual se posicionavam,
mas sobretudo
podia sentir-lhes o bater do coração,
o fluxo de suas preamares
em benefício de minhas marés altas.

E como continuei a ser-lhes, amigos, grato por isso.

Indubitavelmente incrível,
é,
no meu entender,
o que nos ocorre, o que se passa.
Apenas um conjunto de apetrechos eletrônicos
e milhares de quilômetros de fios...
Nada mais, nada além disso...
E, no entanto, a troca,
o grito de nossa humanidade,
de nossos pensamentos,
de tudo o que nos revolta e nos comove.
Estamos nos pontos extremos.
E somos, queiramos ou não,
norte-sul-leste-oeste de cada um.

Virtual ou não,
aqui ao lado ou em outro continente,
jamais vou esgotar-me de tentar sentir
e de tentar fazer sentir,
de sorrir ou de emocionar(-me).
Sim, quero as cordas e as madeiras,
suaves aqui, em Sol,
como também quero todas as fanfarras,
quaisquer que sejam as tonalidades;
quero os sustenidos e os bemóis
ou, em escala maior, as suas ausências.
Se acidentadas,
porque esta é a exigência,
também as quero, escalas.
Quero sempre poder dizer obrigado
e escutar Ravel
enquanto também em Adagio assai
- para que se prolongue, para que fique sem fim -
possa saber que existem rostos
que jamais vi
mas que me alcançam a alma,
atravessando-a
como um arco-íris atravessa a neblina,
as brumas,
as marés de ponta-cabeça.

O meu muito obrigado porque lhes sou, amigos, grato.




- José P. di Cavalcanti Jr. -









 
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