Contra um acompanhamento no qual predominam as cordas e as madeiras, com uma mão esquerda suave na maior parte do tempo e a direita limitada a pouquíssimas notas de uma melodia celestial, o Adagio assai que ouço do Concerto em Sol para piano e orquestra, de Ravel, e pergunto-me: como é possível que música, em colorido suave, assemelhe-se a arco-íris? Melancólico, este movimento também deve ser parte da senha para a placidez, para a felicidade que por acaso se precise encontrar. Não o resolvi escutar conscientemente; tenho, disso, certeza. Os meandros do que não se vê conduziram-me a ele e, agora, sei esse fato porque nos últimos dias, após ter enviado uma mensagem na qual muito revelava do que se passava em minha alma naquele momento, tive minha caixa postal abarrotada por respostas. Sim, respostas e respostas, as mais variadas, centenas delas, todas contundentes, entretanto. Vazia, assim, nenhuma. Nenhuma que me levasse a crer que minha voz se perdesse, sem eco. E senti-me, pelas respostas, amanhecido, limpo qual dobras antes escuras do mundo de súbito banhadas por auroras. Como lhes sou, amigos, grato por isso. Encontrava-me, naquele dia, com minhas mãos supinas, quase pendidas, e pude perceber que nelas não se formavam deltas pelos quais se perdessem as minhas marés. Não, absolutamente não! Pelo contrário, senti em todas as respostas o subir das águas que me lavaram o peito, o coração, e que, evaporadas, permitiram-me o caminhar como se andasse, abençoadamente afogado, nesse oceano invertido que são as brumas. Transmutado pela generosidade alheia, fui prisma, fui cores, fui vibração concreta e abstrata. Ah, Gide! Que agora possam ser novamente saboreados os frutos terrestres! Nenhuma mensagem-resposta foi em vão, independentemente das razões apresentadas. Sem exceção, Adagio assai, curiosamente. Música, concerto em Sol, todas, Sol em concerto, arco-íris. Portanto, ainda que muito lhe sinta a falta, Quintana, aqui discordo que toda palavra escrita seja triste. As que recebi, radiosas, não precisaram dizimar florestas. E algo muito peculiar aconteceu em mim, então. Lia-as e, transportado, delineava os rostos de quem mas enviava, vislumbrava-lhes a silhueta frente ao teclado, o recinto onde se encontravam, a forma com a qual se posicionavam, mas sobretudo podia sentir-lhes o bater do coração, o fluxo de suas preamares em benefício de minhas marés altas. E como continuei a ser-lhes, amigos, grato por isso. Indubitavelmente incrível, é, no meu entender, o que nos ocorre, o que se passa. Apenas um conjunto de apetrechos eletrônicos e milhares de quilômetros de fios... Nada mais, nada além disso... E, no entanto, a troca, o grito de nossa humanidade, de nossos pensamentos, de tudo o que nos revolta e nos comove. Estamos nos pontos extremos. E somos, queiramos ou não, norte-sul-leste-oeste de cada um. Virtual ou não, aqui ao lado ou em outro continente, jamais vou esgotar-me de tentar sentir e de tentar fazer sentir, de sorrir ou de emocionar(-me). Sim, quero as cordas e as madeiras, suaves aqui, em Sol, como também quero todas as fanfarras, quaisquer que sejam as tonalidades; quero os sustenidos e os bemóis ou, em escala maior, as suas ausências. Se acidentadas, porque esta é a exigência, também as quero, escalas. Quero sempre poder dizer obrigado e escutar Ravel enquanto também em Adagio assai - para que se prolongue, para que fique sem fim - possa saber que existem rostos que jamais vi mas que me alcançam a alma, atravessando-a como um arco-íris atravessa a neblina, as brumas, as marés de ponta-cabeça. O meu muito obrigado porque lhes sou, amigos, grato. - José P. di Cavalcanti Jr. -
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