- Sequer tento compreender.
Indigno-me, apenas! -

Obrigado pela visita!


Vladimir Horowitz toca obras magníficas
de A. Scriabin...
e eu escuto,
sempre sentado ao lado da janela
que dá para o jardim já por demais conhecido de vocês.
Sim, aquele jardim
onde crescem buganvílias
e volteiam beija-flores e onde também,
amiúde,
choro e rio.
Ou rio e choro; depende do que me afeta.


Hoje,
apenas escuto Horowitz
e, confesso,
sinto saudade
e lastimo a inexorabilidade de tudo o que nos sobrevive
- ele, Horowitz,
deveria ser eterno
de modo a
ainda tocar muito mais,
muito mais...
Neste mesmo instante, porém,
enquanto Scriabin-Horowitz lavam-me a alma,
o beija-flor suga o néctar
e a bela bougainville parece sorrir à penetração,
sinto-me horrorizado.
Talvez seja o contra-ponto,
a relatividade...
Serei, apesar de tudo, um alienado?
Enfim, o que serei,
além desta pessoa que hoje está cansadíssima?
São 16h:40 de uma tarde ensolarada,
nada diferente de milhares de tardes ensolaradas
daqui e de alhures,
mas algo se passa, algo me irrequieta,
me surpreende mesmo.
Algo que me leva a sorrir timidamente
- como já disse,
minha forma mais doída de chorar.


Ah! Gide, não quero os frutos terrestres.


Pela manhã, exaustivamente,
já que iniciamos às 5h da manhã
e só terminamos às 14h:15,
exercitei o que aprendi a fazer
na tentativa de extirpar uma neoplasia cerebral
bastante destrutiva de um adolescente de 14 anos.
Cirurgicamente,
a intervenção foi, digamos,
bem sucedida mas precisei, inevitavelmente,
tomar decisões cruciais.
Em poucos instantes,
precisei decidir entre
deixar parte do que aberrantemente crescia naquele jovem
e permitir-lhe mais algum tempo de vida
parecida com a que ele conhecia
ou extrair toda a massa,
efetuando, porém,
uma clipagem de uma artéria cerebral importantíssima
e acarretando uma sobrevida um pouco maior,
hemiplégico e afásico
- ( paralisado num dos lados e mudo) -, porém.
Decidi-me pela primeira opção
e deixei parte do tumor
- se ele tiver dor, que possa reagir,
gritar, pedir socorro, ajuda
ou o que for necessário ou estiver ao seu alcance
posto que não posso tomar o lugar de Deus
- não teria competência.


Normalmente, por ser médico,
habituado a estas decisões,
ainda que gigantescas se pararmos para refletir sobre elas,
não estaria aparente
e conscientemente questionando-me
tanto não fossem
alguns acontecimentos dos últimos dias,
culminados por uma URL
que me foi enviada por uma caríssima e indignada amiga,
chamada Ruth Moreira,
que mora em Portugal.
Dos acontecimentos,
escutados pela TV em cadeia nacional,
soube que um pai será julgado
porque injetou vírus HIV em seu filho
de menos de 1 ano de idade
de modo a não precisar continuar a pagar pensão alimentícia
- se ele me conhecesse,
a mim,
que perdi todos os meus
pagaria todas as pensões,
todos os gastos,
todos os excessos
e ainda sorriria enfiando a mão no bolso
em busca de mais alguns trocados...
Soube também que, na Inglaterra,
enquanto Pinochet,
para quem espero a submissão à Justiça
- não apenas à vingança acéfala e cega -
e punido severa e merecidamente pelo que fez de errado,
são promovidos debates acirrados
porque é preciso avaliar-se
antes de qualquer atitude
o prejuízo nas transações das balanças comerciais,
a Câmara dos Lordes
e todos os partidos políticos
discutem se um determinado político proeminente
foi ou não foi a uma casa noturna "gay"
na cidade do Rio de Janeiro.
Isso,
no mesmo dia em que reabilitam a memória de Oscar Wilde,
conferindo-lhe honras e não mais execrações
porque um dia,
feliz ou infelizmente,
amou alguém certo ou errado quanto ao caráter.
E, por último,
através da URL enviada pela linda Ruth,
fiquei sabendo que ursos são mantidos
em cativeiros, imóveis,
com catéteres introduzidos em suas vesículas biliares
para a colheita de bílis
que será utilizada na indústria farmacêutica e cosmética
(shampoos, sabões, etc).
Estes animais são confinados
durante dezenas de anos
em jaulas que não lhes cabem,
impossibilitados de moverem-se,
por sobre suas próprias urinas e fezes,
feridos, cheios de escaras,
com dores permanentes e insuportáveis
pela imobilidade de muitos anos
e um olhar de súplica que a mim evoca
o meu próprio diante de minhas tragédias pessoais.
Posso estar sendo excessivo,
despropositado,
mas estou FARTO!
E desabafo...
Sim, farto de observar que a minha condição humana
me permite ter como semelhantes genocidas,
intolerantes, hipócritas, falsários,
ursupadores, traidores,
homens cruéis e insensíveis,
arrogantes e mutiladores de corpos e de almas.
Eu, imperfeito,
com defeitos, estou realmente farto.
E também atônito, cansado.
Procuro salvar vidas,
sem sequer preocupar-me se são vidas boas ou ruins,
e me vejo cercado de violência,
de iniqüidade, de preconceitos,
de intolerância, de aberrações,
de ganância desmedida.
Por Deus,
a dor daquele urso
não é diferente daquela de uma criança etíope
em sua incompreensão do sofrimento que atravessa;
o meu amor heterossexual,
aceito e sem necessidade de artifícios,
não é nem melhor nem mais bonito
do que o amor daquele homem que possa,
verdadeiramente,
ter amado outro
seja lá da maneira que tenha sido
se com consentimento mútuo.
A minha perda familiar
não é diferente da perda familiar de todos aqueles que morreram
seja em Auschwitz, em Biafra, em Bhopal,
em Santiago, Valparaíso,
Tel-Aviv ou Kabul,
Moscou ou Saigon,
Fortaleza ou Valdivostok...


Amanhã, deverei passar a visita hospitalar
e ver como está o adolescente que tratei hoje.
A medicação analgésica já está prescrita.
Não quero que ele sinta dor,
se eu puder evitar...
Passarei a visita e sorrirei para ele.
Se precisar,
pegar-lhe-ei a mão
e ficarei com ela nas minhas
pelo tempo que ele precisar,
sem preocupar-me
com a Câmara dos Lordes ou Pinochet
mas mais atento à marca do shampoo
que me lavará os cabelos.
Entretanto,
eu queria deixar de ser gente
- é isso o que realmente sinto -
posto que me vejo, com freqüência,
envergonhado.
Quisera pudesse eu
ser a bougainville que se oferece naturalmente
à perpetuação de tudo o que nos cerca,
cumprindo o seu papel sem dolo,
sem hipocrisia,
sendo apenas o que é,
o que nasceu para ser:
uma flor generosa
sem consciência da generosidade.
O beija-flor também não a destrói
- apenas a beija, alimentando-se.


Desculpem-me pelo desabafo,
mas hoje foi mais uma tarde ensolarada,
como milhares de tardes ensolaradas
daqui e de alhures.
O que mudou,
mudou dentro de mim.




- José P. di Cavalcanti Jr. -












 
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