Quero compartilhar com o mundo esta emoção. Hoje, 20 de maio de 1998, por volta das 14h, entrei no Centro Cirúrgico. Nada mais corriqueiro em minha vida de médico, diriam todos. Entretanto, desta vez, entrei de maneira completamente diversa, pelo menos em espírito. Uma vez lá dentro, carregando uma câmera Panasonic, coloquei-me bem ao fundo, no canto mais vazio daquela sala onde pessoas movimentavam-se de um lado para o outro, atarefadíssimas. Com o coração algo acelerado, aguardei enquanto aquelas mesmas pessoas preparavam o milagre que estava a caminho. Uma eternidade, aquela espera. Então, já com a filmadora direcionada para um determinado local da sala, que agora me parecia o centro do Universo, eu procurava ajustar o foco e, surpreendentemente, não conseguia. Tentava em vão já imaginando algum defeito, sujeira nas lentes ou até mesmo fungos. Tentava, tentava... De repente, porque alertado por minhas mãos trêmulas, dei-me conta que não se tratava de uma imagem desfocada, mas de meus olhos marejados. O foco estava mais do que acertado, a iluminação perfeita, o som adequado. Meus olhos apenas choravam enquanto ela, Maria Luísa, gritava a plenos pulmões sua chegada ao mundo. Minha mais nova sobrinha, amigos, ela, Maria, também Luísa, primeira filha de meu irmão Marcos, irmão este 17 anos mais novo que eu e a quem de certa feita, também ele recém-nascido, segurei nos braços num dia longínquo apenas no tempo. Depois, entregue a mim, a linda menina chamada Maria Luísa, frágil, mas com uma voz impossível de não ser escutada, gemeu e acalmou-se, primeiro em meu colo e, depois, no colo do pediatra. Ali estavam todas as crianças recém-nascidas, todos os meninos e meninas de todas as cores, de todas as nacionalidades, perfeitas ou imperfeitas, presentes ou ausentes do mundo. Senti-me privilegiado, atônito por imaginar-me merecedor de tamanha homenagem... Eu, que já cresci e perdi aquela pureza; eu, que me tornei homem e tantas vezes errei; eu, que um dia, pleno, farto até à beira do cansaço, segurei outras crianças igualmente lindas e as amei, achando-as crianças eternas, como um alucinado por tão pouco tempo já que as perdi em alguma nuvem do céu; eu, que fiquei tão só na pequena imensidão do mundo, embora nunca deixasse de olhar para o alto na esperança de rever-lhes os sorrisos, os choros, o sono - ( nada mais maravilhoso que uma criança a dormir... Duvidam disso? Procurem uma, então, vejam-na com os olhos fechados e digam-me se não tenho razão? ). Obrigado, Maria Luísa, por você ser tão rósea, tão cheirosa, tão linda, tão eterna. Obrigado por mostrar-me a nuvem que sempre procuro, o riso que sempre penso escutar, as pequeninas mãos que sempre quis voltar a segurar, mas sobretudo este sono tranqüilo que contém a paz, que encerra um anjo... Seu tio tolo, vivido mas de olhos marejados e coração alado por tanto arrebatamento, não desfocou a imagem: apenas mergulhou tão profundamente na própria alma até aquele ponto onde dor e alegria se fundem e, em invertida maré, alcançam os olhos e transbordam. Desculpe-me pela lágrima que lhe caiu em cima da manta mas faça de conta que não lágrima era e sim, numa florzinha ainda mais delicada, delicada rega. Obrigado, mano e Andrêssa. Obrigado, amigos, pela alegria compartilhada. Obrigado, Deus. O que dizer a você, meu lindo bebê? Minhas boas vindas, Maria Luísa, e obrigado, obrigado, obrigado, infinitas vezes obrigado. - José P. di Cavalcanti Jr. - |
