- Adeus, Elvira -

( Para Elvira Soubrevie-Roovers )


Obrigado pela visita!


Será possível
que uma dor doa mais
do que ela própria possa doer,
levando-nos até uma espécie de retorno ao início,
ao primeiro instante exato
antes de seu começo?
Acredito que as homenagens que prestamos
às pessoas queridas,
quando feitas junto àqueles que as conheciam,
esvaziam-se.
Ao contrário,
se prestadas
em meio a pessoas que
desconheciam o(a) homenageado(a),
ganham força,
elevam-se à estatura dos sonhos,
dos mitos,
do que tem grandiosidade.


Mais uma vez, em minha vida,
o dia amanheceu nublado.
Um dia primaveril,
chuvoso, feminino,
mas enormemente triste.
Triste
como somente pode acontecer na ausência,
nesta ausência.
E pergunto-me,
igualmente triste,
por que não se esvai a tristeza como a fumaça?
Por que se delonga,
ela, esta dor,
como velhos intermináveis contos orientais?


Tenho 48 de idade.
Tinha, então, 22 anos de idade.
Ela, quando a conheci,
era trinta e cinco anos mais velha que eu.
Ela,
Elvira Soubrevie-Roovers.
Argentina, portenha,
louca o bastante para ir,
em férias até Hong Kong,
então sob domínio inglês,
durante a Guerra das Falklands/Malvinas,
mais expressiva que bela,
indiscutivelmente marcante,
morava, como eu, em Ipanema,
no Rio de Janeiro.
Conheci-a no vernissage de um pintor
já relativamente famoso àquela época.
Foi-me apresentada por uma amiga comum
que não lhe poupou elogios.
Uma apresentação natural que,
embora eu não me apercebesse no instante
- era muito jovem ainda
para compreender a dimensão
daquele ser-humano diante de mim -,
marcaria minha vida para sempre de modo indelével,
cirúrgico.
Inconscientemente,
algo tocara-me,
plantara uma semente de árvore muito frondosa.
Aquele momento foi o meu turning point.


Soube-a química industrial por formação acadêmica,
mas, além de magnífica pintora diletante,
poliglota - fluente em 8 idiomas -,
ex-bailarina clássica do Teatro Cólon, de Buenos Aires,
e ex-vedete do Carlos Machado
durante seus primeiros anos no Brasil,
país que escolheu para viver
depois de algumas experiências desagradáveis
decorrentes do anti-semitismo
no período da Segunda Guerra Mundial.
Livre, queria a liberdade.
Jamais a conheci enquanto homem,
embora lhe percebesse o desejo.
E este fato hoje representa um arrependimento.
Meus então 22 anos
estúpida e impiedosamente
sublimaram, em mim, esta possibilidade
posto que jamais a vi com olhos
senão os de um amigo mais novo.
Aquela mulher madura,
muito mais velha do que eu,
era possuidora dos mais belos seios que já vi em minha vida.
Convidado por ela
para ir assistir ao Balé de Maurice Béjard
no Teatro Municipal do Rio de Janeiro,
passei em sua casa para apanhá-la
e eis que ela me surge num vestido preto,
transparente, sem soutien,
deslumbrantemente elegante,
sem o menor vestígio de vulgaridade qualquer.
Diante de meu extasiamento
e, pela primeira vez,
consciente da fêmea que se sentava ao meu lado,
não tive maturidade para alcançar-lhe a mensagem:
Eu,
Leda-Elvira,
não preciso mais pensar na morte.
Arranjei-me um cisne.


Durante muitos anos,
amigos,
esta mulher foi uma orientação em minha vida.
Com e através dela,
quando me recitava
ou Calderón de la Barca ou Gabriela Mistral,
ou ainda, a ela dedicado,
Alamos Talados,
escrito por Abelardo Arias,
em Espanhol, ao pôr-do-sol nas pedras do Arpoador,
quando mandava que eu entrasse em sua casa
e continuava a pincelar suas belíssimas telas
ou corria e,
ao som ou de Purcell, ou Mahler, ou Miles Davis,
trazia-me às vezes chá,
às vezes vodca,
aprendi a liberdade,
aprendi o exercício dos sentimentos e das emoções.
Conheci,
ao fim de um trecho qualquer
de Borges ou de Lautréamont,
lido à beira-mar ou dentro de casa,
que o horizonte tanto pode ser a curvatura da Terra
quanto a dobra vincada da queda
ou a permissão para o vôo infindável.
Elvira, liberdade,
dava-me, generosamente, asas.
Quanto ensinou-me aquela mulher,
esta querida amiga.
Tivesse-a conhecido biblicamente
seria melhor do que sou,
hoje, dia 09/11/98,
quando soube
- com esta dor que dói tanto -,
que jamais a verei novamente.
Soube-o pela manhã. Caminhei até à praia
e lá permaneci por um bom tempo.


As praias
sempre foram muito constantes em nossas vidas.
Não as praias de verão,
mas aquelas das brisas,
das brumas que invadimos e percebemos
- aprendi com ela -
que nada mais são que invertidas marés.
Sim, ela dizia:
Evaporado,
em bruma, o mar,
de ponta-cabeça...


Não chorei à beira-mar.
Não o consegui.
Sal em demasia.
Só o fiz, na volta,
ao entrar no jardim que circunda a minha casa.
São, como ela,
ali, muitas as flores.
Confesso:
chorei copiosamente sem barulho
e, lembro-me,
esbocei tímidos sorrisos
- minha forma mais doída de chorar.


Elvira, amiga,
saudade também será seu nome.
Saudade quando escutar,
sozinho,
as Quatro Últimas Canções, de Strauss,
quando Dido inundar-me
com When I am laid in earth..., de Purcell,
quando lembrar-me
de Botticelli, Portinari e Modigliani,
seus favoritos,
quando uma amazona recordar-me
de suas risadas enquanto,
caricatura de uma Valquíria soprano,
fingia cavalgar no centro da sala
ou simplesmente
quando uma flor abrir-se,
uma chuva leve cair, um aroma de chá encher o recinto,
um barulho de riacho ecoar,
uma criança sorrir,
alguém passar delicadamente a mão por meus cabelos
- (só você e Carolina,
que também sempre lhe amou
e jamais teve ciúmes de você,
tinham aquela doçura no toque)
ou qualquer outra coisa suave
que me evoque o seu prazer pela vida,
o seu transbordamento.


Presto-lhe esta homenagem
junto a pessoas que não lhe conheceram.
Mas tenho certeza
que todos se lembrarão de seu nome.
Saberão que, um dia,
existiu em minha vida esta Elvira,
norte-sul-amiga-leste-oeste,
amiga quatro-estações,
amiga montanha-musgo,
amiga seixo-catarata,
agora amiga-saudade
mas sempre minha amiga.
Obrigado por toda a beleza
com a qual você inundou a minha vida.
Se algum anjo por acaso perguntar-lhe,
minta, minta mesmo:
diga-lhe que a conheci mulher
já que foi você quem me ensinou
a deixar de ser cisne aprisionado,
transformando-me em homem alado.




- José P. di Cavalcanti Jr. -











 
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