- Primeiro dia... Recordações -

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( Há 30 anos, meu primeiro dia como estudante
de Medicina, aos 17 anos incompletos )

O insólito.
Na cor.
Sim, sobretudo na cor.
Algo como a relatividade do tempo, como as grades (que me permita Ionesco) invisíveis desta infinidade de gaiolas que se sucedem e nos cercam, ou ainda, como o inusitado do encontro de transbordante lirismo e beleza que podem ser os pecados no folhear, por exemplo, não de variegados hexâmetros homéricos, nem da cristalinidade de Virgílio e muito menos da nobreza de Thomas Mann, mas do que há de mais pessimista e execrável em uma belíssima obra do Santo [ ? ] Genet. Sem dúvida, nesse estudo a atmosfera parece-me a mesma.

Como, para quem jaz, a inutilidade das fumigações e das litanias. Como os movimentos dos sorrisos e dos trismos; a impressão da Poesia e do Vício.

Como o uso abusivo das palavras que, cedo ou tarde, exumam o silêncio.
A mesma. A atmosfera. Na intenção.
Na branca contigüidade com a evidência, simultaneamente soberba e feia, do efêmero repetitivo. Com corpos inteiros e, preparados, aos pedaços.

Paira sempre no ar, ainda que com sutileza, uma enorme necessidade de esplendor e de desvario.

Lembro-me.
Do lado de fora, contra as janelas, galhos de flamboyants enfileirados adejam e arranham as janelas.

Brincadeiras e medos.
Medos infantis.
À semelhança de luares, a insistência do remoto.
Na Natureza, até mesmo o que morre encerra espontaneidade, primor.
Em mim, no jovem homem sonhador de branco atento aos ruídos, o recrudescimento das saudades, dos efeitos. Saudades até futuras ainda, mas já imaginadas.

A dúvida. O tédio. O engano.
A contemplação. O êxtase e o esforço.
Muito estudo.

Já mais um outro debruçar-me por sobre um corpo e o óbvio. Mais um.

Qual a brevidade de um tanka, ou mais ainda, de um belo hai-kai, a tentativa de êxito de um malogrado esquecimento.
Lábil intermezzo, fecham-se os círculos.
Rodeiam-me, à revelia e sem recursos meus.

À guisa de lapidadores, galhos ainda adejam, ainda arranham os vidros. Deixam cair as minúsculas folhas e pétalas vermelhas.
Chora sangue também, lá fora, a Natureza?

Aqui, a rigidez.
O lado dos já vencidos ou dos já descansados?
Troncos, membros, crânios, ossadas, genitálias.
Tudo à minha frente.
É, como dizem, o início do aprendizado de meu sacerdócio.
Massa preservada, inerme.
Preciso extrapolar e aplicar este respeito aos vivos, embora ali eu também respeite quem me serve.
À minha disposição já foram eu mesmo em outro Eu, quiçá até melhores.

Estou sentado.
De luvas.
Arranco-as para nunca mais usá-las em Anatomia.
Como todas as metáforas: um coração em minhas mãos. Assusta-me isso, o dedilhar desta eloqüente metáfora estática.

Onde, naquele coração, a loucura, o amor, o ódio?
Mas não é no coração!
Onde, então?
Não há vestígio de almas.
Onde, todas as rimas e mágoas?
Procura inútil, mas inevitável.
Este será, embora ainda não saiba, meu maior desafio. Aliás, só compreenderei mais tarde que o adagio calmante pode ser o cansaço melancólico do desespero.


A um canto da mesa, um ralo.
último vestígio.
Perdidas, as funções.

Por sobre este abismo, amiúde cansadíssimo, porém compenetrado, eu e minha especulação estudiosa.
A lide com o agora irreversivelmente reduzido ao nunca, então já obsceno e irônico sinônimo do sempre.


Genet, você tinha razão:
o lírio exige tanto da luz quanto da lama.


Por isso, conquanto saiba de sua existência, mas a quem jamais dedicaria coisa alguma voluntariamente, não vejo, caro Machado, o verme que primeiro roeu as carnes frias.
Não o vejo. Não quero fazê-lo.


Ando à cata de almas,
mesmo que elas me apontem os vermes.
Então, pergunto-me:
serei, um dia, um bom médico?




- José P. di Cavalcanti Jr. -



( Crônica publicada no site
da Blocos Editora )








 
Texto 35 - Copy & Copyright de todos os textos: José P. di Cavalcanti Jr.


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