- A carta -



... j'aimais moins votre visage de jeune femme
que celui que vous avez maintenant, dévasté. *
( Marguerite Duras )



Não chore, não junte os dedos em súplica, não se revolte:
é preciso envelhecer.
( Colette )





Obrigado pela visita!




Apesar de recurso batido, é assim mesmo que é a pele de Ângela: macia como a imagem dos pêssegos e clara como porcelana clássica, quase imaculada. Ah!... esta pele... esta pele não sangra!, rompe o silêncio e voeja o sussurro de Sérgio. Os olhos azuis de sua bem-amada seriam tristes não brilhasse, um pouco abaixo, toda a largura de um sorriso feliz, malgrado a timidez. Como uma pedra de jóia de compromisso, Ângela fulgura silenciosamente com a demonstração do prazer gerado pelo amor que sempre recebera.

Os olhos também azuis de Sérgio refletem um céu acinzentado como calçadas úmidas de um fim de tarde de inverno, à medida que ele murmura: Acredite-me, você continua a ser de todas as minhas ilusões, aquela que valeu a pena, e o meu único amor. Nada e ninguém me traz mais música.

Como a esculpir um precioso camafeu, seus dedos pretensamente trêmulos, porque indômitos, e com uma avidez inutilmente disfarçada de conclusivos exploradores, deslizam pela sedosidade dos cabelos de Ângela, desenham-lhe os traços, percorrem-lhe o pescoço e chegam ao seu colo. Entretanto, talvez arrependidos, recuam rapidamente de volta à boca. Com o retrocesso e com a jura de mais demora nas carícias, Sérgio tenciona não só prolongar a sedução mas, também, conferir eternidade ao instante que presume, embevecido, conter toda a mágica daquele amor. Em seu anseio, transformando em perene o que sabe inexoravelmente efêmero tanto quanto o degelo das cataratas - elas acabam sempre por conquistar e aprisionar o calor - Sérgio quer vida, quer mais, quer paixão. Ele repele, então, a realidade que não quer admitir e persiste na necessidade que o domina de transformar pelas mãos - afinal, não são elas que aram, semeiam e colhem os milagres? - a certeza de seu amor mais que sincero, fiel. O seu olhar, que até agora acompanhara o passeio pelo rosto da amada, detém-se sobre a cerimoniosa exposição do sorriso e ali demora-se, frágil, comovido, acetinado. Farta-se do que sempre lhe dá fome e, à semelhança de uma radiante alvorada que, ao lavar as dobras do mundo, a este entrega uma bela manhã, Sérgio, no enleio, retém-na como se prendesse entre as mãos um poema, de uma vida inteira, toda a essência.

Inclinado discretamente para a frente como se caminhasse, atento, por entre brilhantes e neblinas, ele retorna ao colo e enlaça-a com uma ternura capaz de consolar um gemido de virgem. Decidamente, pensa, o amor é fruto do sol; caso contrário, como explicar-lhe o ardor? Abraçado a Ângela, Sérgio lembra a lapela - horizonte vincado - de um envelope.

Mais uma vez, a experimentar o maravilhoso e pleno transporte que lhe oferece aquele amor, ele não se dá conta, no entanto, do perigo da sua devoção qual uma criança, no escuro, não percebe a débil sustentação que uma vela concede à chama. Como evitá-la, porém? Não fora e não é aquele amor o seu abrigo e o seu impulso, a sua vitória e a sua rendição, tudo e quase toda a sua vida, lindamente? É justamente por isso que Sérgio, ao lado dela, não quer ver nem mesmo as horas. Acima de qualquer coisa, inclusive do tempo, este é o seu deleite. Não incorrerei neste erro, minha querida, torna a falar, e recuso-me a contar o tempo do nosso amor do mesmo modo que não o comparo a coisa alguma. Com um beijo sobre a ponta do indicador, impressão sutil, indelével, ali quase abstrata como um devaneio, firma sobre os lábios de Ângela o seu terno pacto.

Áspera, de repente soa a campainha. Passado o susto, sem perceber que deixara cair ao chão o envelope que contém a primeira carta que lhe escrevera Ângela, Sérgio desculpa-se, pede licença, deixa a sala e dirige-se ao jardim de modo a alcançar o portão.

Boa tarde! O senhor ainda não mandou consertar a sua caixa postal? É sempre a mesma coisa a cada vez que lhe trago a correspondência; além de precisar causar-lhe esse incômodo, perco um tempo enorme, precioso. Por favor, mande consertá-la; está bem? Dito isto, o carteiro afasta-se.

Sem responder-lhe, Sérgio espera que o homem se distancie enquanto palavras que apenas escutara, tais como perco e precioso, parecem ecoar em sua mente e só então caminha alguns passos de retorno a sua casa. Uma vez lá dentro, senta-se; Sérgio senta-se no mesmo lugar em que estava, agora, porém, alquebrado. A seus pés, misturados ao envelope com a primeira carta que Ângela escrevera-lhe, algumas contas, tantas bobagens, diversos folhetos publicitários...

Bem mais tarde, sem dúvida muito tempo depois do anoitecer e ainda completamente refém de uma sensação de total inutilidade, Sérgio abre lentamente o álbum de fotografias e, entre outras imagens também já bastante amareladas, ali recoloca Ângela, protegida por quatro canaletas que, malgrado o surrado aspecto, - podia-se ver - eram de antigo papel dourado, daquele folheado a ouro.






- José P. di Cavalcanti Jr. -


* ... eu gostava menos de vosso rosto de jovem mulher
que deste que tendes agora, devastado.
( Marguerite Duras )







 
Texto 31 - Copy & Copyright de todos os textos: José P. di Cavalcanti Jr.


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