Ansioso e abatido, Marcos aguardava que os carregadores da empresa de mudança trouxessem seus móveis, utensílios e pertences. Lúcido, sabia que não trariam a supressão do vazio, filho maldito da poesia. Há pouco separado, ele tentava imaginar como ficaria o novo apartamento depois de arrumado. As paredes, sem dúvida, precisariam de pintura... Tolice, reflete. O que fazer com a alma, isso sim importava, isso sim era preciso. A história que se segue será contada apenas pelo milagre que encerra. Inteligente e sensível Marcos era aquele tipo de pessoa que passa a impressão de ser capaz de colocar o coração nas mãos e, assim, parecer que seleciona grãos de melhor qualidade para a semeadura de si mesmo, se isto é possível. Dos pais, afetuosos e inteligentes, recebera excelente educação: herdara a paixão materna pela Música e, do pai, o amor pelas Letras. Quanto à sua humanidade, já dissemos, manipulava bem o próprio coração e era, portanto, de fato um bom homem. Escolhera ser médico porque, além de gostar da idéia, pensara ser capaz de melhor compreender, com o exercício da Ars Curandi, a fragilidade da matéria e a força que a anima - acreditara que elucidaria de alguma forma o seu milagre de ser com a explicação racional desses dois elementos da natureza. Marcos era, àquela época, muito jovem e sonhador para perceber que a ciência hipocrática não decifra milagres, embora os constate e lide com eles. Dedicara-se aos estudos com afinco e fora aluno dos mais brilhantes até mesmo depois de perceber que todo aquele aprendizado não lhe desvendaria o enigma, levando-o apenas ao entendimento que transforma corpo e alma, nos dois sentidos, em faces da mesma maravilhosa angústia, supostamente antagônicos porque submetidos à ordem natural do caos. Foi nesta reversibilidade que Marcos julgara residir o que entendia por eternidade e, atraído pelo que chamava de sinergia do antagonismo, defendia o seu ponto de vista relativo à ambigüidade da existência com o argumento de que o mais grave dos sons, se tocado pianissimo, não perde a sua profundidade. Citava, então, com freqüência, o Concerto em Sol Maior, para piano e orquestra, de Ravel, cujo trecho lento, adagio assai, o mais calmo e contundente dos movimentos, é o retrato sonoro quer do estado de graça quer da mais profunda melancolia. É a receptividade do que não compreendemos que macula a vida, não a expressão do que é natural, compreendera. O apartamento para o qual se mudara era muito bom, arejado, com belíssima vista para o mar e para as montanhas. Encontrá-lo, dera trabalho, mas... Absorto em tais reflexões, Marcos foi trazido, no entanto, algo de volta à realidade pela chegada dos operários da transportadora. Caixas e mais caixas, traziam eles livros, discos, móveis, quadros, utensílios; enfim, tudo o que se acumula, seja util ou não, e que depois, à guisa de partes de nós mesmos ou de transformação em quase membros familiares, carrega-se pela vida afora. Amiúde somos, pensara, colecionadores de nossas vidas em papéis velhos e, muitas vezes, esquecidos, deixados de lado. Talvez por isso não saibamos, em certas ocasiões importantes, o que ou quem escolher, a que ou a quem realmente dar prioridade. Em meio a tudo isso, Marcos assim decidira aproveitar o final de semana para começar a colocar tudo em ordem e, conseqüentemente, viver dias cheios, ocupados, dias que lhe amenizassem algo de toda aquela tristeza que sentia. Sozinho, já se havia passado algum tempo desde que começara a abrir as malas e todos aqueles embrulhos, caixas e pacotes, Marcos julgara existir, entretanto, alguma coisa que lhe roubava a atenção. Ele só desconhecia o que era, não conseguia equacionar o que, de forma estranha, talvez ocorresse. Por mais de uma vez percorrera todos os recintos, abrira e fechara portas, fora às janelas, e nada descobrira, nada à exceção dos ruídos normais das cidades, de uma ou outra voz distante, sem importância, dos ecos que existem nas casas ainda desarrumadas e dos ventos nas árvores. Mais que intrigado, disposto a desvendar aquele mistério, Marcos entrou no cômodo que escolhera como o seu quarto de dormir, olhou à sua volta por algum tempo e, encostando-se à parede, sentou-se. - Ah!, eu sabia que havia algo, disse-se ele, levantando-se à medida que sentia um leve tremor em suas costas e percebia que era a parede contra a qual se encostara aquela que lhe transmitia uma débil vibração. Colando o seu ouvido àquela estrutura, Marcos compreendeu tratar-se de música e, mais, porque já identificada, da Liebestod, do Tristão e Isolda, de Wagner. De modo a ainda aumentar toda aquela estranha experiência, a música era, agora, audível, ecoando de forma definida em todo o seu esplendor. Também, saciada a curiosidade, ele retornou ao que fazia e só parou quando, tarde da noite, muito adiantara de tudo o que tinha a fazer e, já cansado, nada desejava senão banhar-se e dormir. O contato com a água fora-lhe inicialmente benéfico, trazendo o merecido e esperado relaxamento. Contudo, após alguns minutos, Marcos foi tomado por uma tristeza até então não experimentada. Nova, era uma tristeza imensa. Pela primeira vez, parece, conhecia o que era e o que pode produzir um abandono. Despido, a sentir a água tocar-lhe todo o corpo, ele era o que fica para trás, o que se deixa sozinho, sem explicações. Não fora ele que desistira da cumplicidade; ela alegara, simplesmente, desinteresse. Pragmática e imediatista, Ana era-lhe o oposto. As emoções só lhe serviam quando diretamente interessada; do contrário, eram meras tangentes valorizadas apenas nos pontos de toque. Oito anos de união e Marcos cercou-a, fechando-a pelos pontos tangíveis. Pensava, desta maneira, segurá-la, mantê-la. Ana, mais egoísta do que solta, mais enfadada do que independente, repelia-o, quase a dizer: Em mim, só eu! À medida que se molhava, Marcos sentia a tristeza alcançar-lhe o peito e, como há muito não o fazia, chorou. Esfregava-se intensamente como se acreditasse possível fazer descer ralo abaixo o que o angustiava ao mesmo tempo que ponderava sobre o fato de lavarmos o corpo mas não lavarmos, por mais que choremos, sentimentos. E se nos banhássemos com música?, pensara. Pois então, como é possível exigir-se coerência em quem os sentidos não captam esperança? Ao banhar-se, Marcos apenas tornara-se permeável, pela primeira vez e por desamor, à solidão, e esta uniu-se à dor. A água que nos alivia, também nos afoga. Ele sabia disso; apenas não se lembrava. Terminado o banho, deitara-se; talvez, se dormisse...? Foi quando escutou novamente a melodia que ouvira à tarde. Estranha coincidência: ele, ali... aquela parede, Isolda e seu canto, já antes ferido, desde Ha! Ich bin's, ich bin's*... Tristão, onde; onde, Tristão, que não lhe pudera dar nur eine Stunde?* ... ah! a ele também não, não lhe haviam dado, pedida, a hora a mais, aquela que talvez... se aquela música parasse, de forma doce e suave, seria possível que adormecesse pelo menos por algum tempo... quem sabe até sonhasse e, enquanto isso, sorrisse à medida que Brangäne*, certo dia, recomendasse, leitmotiv*, Habet acht! Habet acht!*, cuidado?... mild und leise wie er lächelt*... de fechados - quem sabe? -, abrisse os olhos... wie das Auge hold er öffnet*... uma vez... duas... três, quatro, cinco vezes... em todos os sentidos, escalas cromáticas; repetições em motivos condutores e longos fraseados a quase impedir que se respire porque, afinal, morrerá Isolda depois de saber que morreu Tristão... e Marcos, exausto, tristemente escuta, escuta... de novo, cerra os olhos, e jura, na voz de Ana, ouvir Höre ich nur diese Weise, die so wundervoll und leise*, contra o entrecortado de sua própria respiração... Foi neste ponto que se levantou, já muito tarde naquela noite. Não é possível, pensara, que ainda repitam essa música. Por que tanto precisam saber da morte do amor aqui, exatamente aqui, ao lado de quem, não faz muito, o amor acabou de matar?, dissera-se, de forma dolente, à medida que decidira procurar por seus vizinhos para pedir-lhes que ao menos diminuíssem o volume pois precisava dormir. Explicaria que, apesar de também apreciar música, estava cansado, muito cansado. Serei educado e terão de compreender-me pois não deixarei, seja como for, de agir com firmeza, completara. Marcos bateu à porta, e aguardou. Passados alguns minutos, e porque a música estava então ainda mais audível, inutilmente insistiu. Irritado, tentou o trinco e, para a sua surpresa, viu a porta abrir-se completamente na primeira tentativa. Apesar do estranhamento, Marcos bateu palmas enquanto perguntava se havia alguém em casa. Nada, nenhuma resposta, ninguém; só, eternamente, a música. A porta aberta, uma sala ampla, de dentro da qual se destacava um belo piano de cauda; tudo na penumbra. Algo sugeria que, quem ali morava, amava o que tinha mas, sem dúvida, de um amor muito especial. Esta fora a primeira impressão que Marcos tivera relacionada aos possíveis vizinhos. Insistente, ele avançou e percebeu, ao final de um escuro corredor que terminava exatamente naquele ponto da sala em que ele se encontrava, uma porta atrás da qual havia muita luz. A bater palmas e a anunciar-se também pela voz, Marcos seguiu em frente e passara a crer que alguma coisa o empurrara desde o princípio naquela direção. Com a porta aberta, estarreceu-se com o que viu. Sobre a cama arrumada, um casal de velhos jazia. Abraçados, estavam mortos. As cortinas e as janelas impediam absolutamente qualquer coisa, inclusive a luz, que, do exterior, ali tentasse entrar. Uma luminosidade só dali de dentro, estranha mas suave, etérea, inundava o recinto como feixes trançados e que, paralelos entre si, agrupavam-se de cinco em cinco. Previamente angustiado por sua própria tristeza e chocado com a cena que se descortinava à frente, Marcos, ao perceber que o contorno das coisas indefinia-se como se vistas através de transparentes névoas, não se sentira seguro para decidir-se se o que vira eram espalhadas flores murchas ou acordes, colcheias, semicolcheias, arpejos e ornamentos que, depois de reproduzirem seus respectivos sons nos feixes de luzes trançadas, tombavam por sobre o casal, transformados em lírios, rosas, narcisos e jasmins que renasciam em mais música. Refeito do choque, algum tempo depois, Marcos finalmente compreendeu o que se passara ali. Tomando o que presenciara como um sinal, ele agora sabia, finalmente, o que fazer. No apartamento, naturais, flores. Sua alma, ele encheu-a de esperança. - José P. di Cavalcanti Jr. - * [Ha! Ich bin's, ich bin's - Ah! Eu sou, eu sou (ou Ah! Eu estou, eu estou...)] * [Nur eine Stunde - Apenas uma hora (ou uma hora a mais)] * [Brangäne (aia de Isolda)] * (Leitmotiv - motivo condutor) * (Habet acht! Habet acht! - Cuidado! Cuidado!) * (Mild und leise wie er lächelt - Doce e suave, como ele sorri) * (Wie das Auge hold er öffnet - Como seus olhos abrem-se gentilmente) * (Höre ich nur diese Weise, die so wundervoll und leise - Só eu escuto esta melodia tão maravilhosa e doce) |
