- A espera -


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Crônica de Ano Novo


Enquanto a luz, quase a escorrer feito cascata pelo parapeito da janela, expulsara a noite espessa do quarto, Neide costura. Borda a bela renda de seu vestido branco e seus dedos, hábeis artesãos, parecem alados e percorrem toda a delicada extensão, dobrando-a como algo que buscasse abrigo na suavidade de narcisos, de lírios e de jasmins. Prega-lhe mais pedrinhas brilhantes, talvez estrelas cadentes posto que formula um pedido: Que seja desta vez!, pensa. Seus olhos, então, apertam-se à procura do fundo da agulha e o piscar, exercício de lâminas afiadas, corta ainda a possibilidade de emoção exposta. São olhos que ainda não ousam brilhar mais que o tecido que se derrama daquelas mãos.

Silenciosa como o fluir do sangue, sua expectativa é calada. Sempre o fora, como as notas que não se tocam. Crê, com isso, iludir a ilusão tal qual um sorriso factício acredita-se capaz de fingir que não se importa. Trespassa a trama com certeiras agulhadas e, ao contrário das ocasiões que lhe feriram o coração, não vislumbra dor, furtivos e harmoniosos arco-íris, porém, antes encerrados nos pequeninos cacos de vidro, sobre seu colo. Retira o dedal, espeta o instrumento dos fios de seda na gola do roupão, passa uma das mãos na testa e estende, contra a luz e contra a noite a bandeira de minúsculos relâmpagos. Que encanto!, diz, resplandecida.

Mas que necessidade tem Neide de refazer todo aquele bordado? Onde pretende ir, Cinderela sem a esperança do cristal perdido? Ora, nada tem importância, nada, exceto o preenchimento dos espaços vazios da renda. Não quer nem saber das lembranças, ironias cortantes mantidas sob a goma e das quais inconscientemente se vinga com espetadelas. Imersa no minucioso e repetitivo trabalho, não nota - e se o fez, disfarçou bem - uma imperfeição na geometria artesanal, quiçá tristeza da fiandeira, quiçá sobrevivência de uma traça. Creio que Neide disfarça porque odeia presságios e logo recobre o defeito com mais um brilho, mais uma cópia reduzida da beleza do Oriente. Pronto, mais uma pérola, a última!, exclama satisfeita e deseja que haja luar à medida que, ajoelhada sobre a cama, desamassa a cintilante transformação recém tecida. Espalha-a, admira o sonho por instantes, e desce. Ao pisar o chão, no entanto, encontra seu cotidiano, picadeiro de segunda classe, mal iluminado e cujo colorido sugere um camuflado luto por felicidade que não sente - é outra artista abandonada em palco às escuras. Contudo, ela resiste e não se submete à realidade, deixando-a que apenas lhe toque os pés, distantes do coração. Neide prende os cabelos e impede, ao dirigir-se apressadamente para o banheiro, que a envolva a clareza de qualquer outra verdade; tira o roupão e entra no banho frio como uma gata foge de um facho luminoso, enfiando-se no escuro. Que agradável e estranho elemento é a água!

O recinto recende a juventude das flores do campo engarrafadas e Neide enxuga-se, de costas para o grande espelho. Roça os bicos dos seios com a toalha úmida e ateia fogo a uma tocha, mistura de excitação e de ansiedade. Transfixa, quase atáxica e sem voltar-se, retira de dentro de uma das gavetas um outro espelho, menor, e começa a maquiar-se. Anseia pelo efeito final e, portanto, não se permite ver-se ainda descorada. Que seja desta vez!, repensa três vezes como algumas pessoas batem com os nós dos dedos contra madeiras. Obriga, então, que o vidro que só sabe imitar às avessas inverta os fragmentos de seu rosto e, lentamente, transfigura-se, nacara-se. Risca os olhos com matizes de límpidos mares rasos e dá-lhes, com o bater de pálpebras, uma cobertura de suaves ondas. Contorna a boca com sensualidade vermelha, rutilante. Os lábios, assim, destacam-se e tornam-se o único ponto realmente marcante: um sinal, uma orientação, um nervosismo. Como permaneço bonita!, murmura Neide, encantada. Veste-se, então, e para diminuir aquela sensação de novamente ser menina coloca um pouco de perfume, o mesmo que usara há doze anos quando tudo lhe aconteceu. Como o persignar-se submerso nas águas bentas, asperge com a ponta dos dedos a essência que atravessa o tempo, atrás das orelhas, entre os seios, nos pulsos, na nuca. Agora, já pronta, então, só lhe resta aguardar.

Não obstante ser um apartamento pequeno, arrumada como uma princesa Neide imagina-se a percorrer corredores de imponentes catedrais. Avança, então, discretamente, como o sussurro de preces sinceras, e surge na sala ainda sem dar-se conta que sua expectativa só tem voz nos rituais, longe dali. Coloca um disco para tocar, uma voz negra, áspera e sensual, e, depois, serve-se de um pouco de vinho. Por causa da música, rallentada, justifica, que lhe alcança, bebe ainda um pouco mais, ela que habitualmente pouco bebe. E porque bebe, ali, também quimeras, adormece e, em seguida, vagueia pela plácida baixa-mar de seus olhos, chegando à velha abadia.

Neide acorda, assustada tanto pelo sonho quanto pelos ruídos que jura ser o som de uma buzina de carro. Vai à janela. Ele deve estar no elevador!, é o que deduz por não ter visto pessoa alguma. Corre, então, para a porta, abre-a, e espera. Os ruídos aumentam. Neide espera. Anseia e espera mas ninguém desponta. Ela fecha a porta do apartamento e gira em torno de si mesma qual uma rosa-dos-ventos indecisa. Detém-se, por instantes, leva as mãos enluvadas qual tulipas rasgadas ao rosto e recolhe por entre seus dedos abertos as únicas lágrimas que todos os anos se permite chorar.

Algum tempo depois, Neide retorna ao quarto, tira o vestido e guarda-o. No armário, dentro da caixa, fogo-fátuo. Livra-se meticulosamente dos artifícios, e deita-se. Mesmo que ventos vergastem paredes de desfiladeiros, Neide apenas deita-se e esboça, frêmito do lábio inferior, a sua agora incapacidade para mentir, para mentir-se. Reabe os olhos e emite um soluço trêmulo e dolente enquanto encolhida reduz-se à dimensão de sua desvalida exclamação. Há, de fato, látegos na solidão.

Também, - que loucura! -, além de marcar há muitos anos o seu casamento não realizado para esta mesma noite, onde já se viu alguém confundir o assovio de rojões com o som da buzina de um automóvel e comemorar a passagem do ano sozinha, dormindo e, ademais, vestida de noiva?




- José P. di Cavalcanti Jr. -









 


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