Instigadora, era uma noite morna, sensual. De lua cheia, aquela noite. Nilson deslizou a mão por baixo dos lençóis e trouxe Marília para junto de si. Uma florada, ela, que apenas se deitara, respondeu-lhe à solicitação imediatamente. Oposta à reação das sensitivas e, quiçá, incitada pelo calor, abriu-se ao toque, carente. A sua pele, desde sempre saudade, fronteira, inflamou-se e desejou, fosse o quanto fosse, o tanto que fora a demora de todas suas esperas. Entregou-se, então, novamente maravilhada como toda mulher que mais espera. Ele possuiu-a com gosto; de fato, tomado pelo arrebatamento. Num dado momento, então, com uma das mãos apoiada ao lado do travesseiro, a outra, qual um laçador, erguida um pouco acima da cabeça porque apoiava-se à cabeceira, elevou o tronco e, subjugado, abandonou-se não somente aos gemidos e espasmos, mas também ao descuido quando, ao contrário de só acolhê-la no abraço e nos beijos, entregou-lhe outra mágoa. Vânia!, dissera ele, arfante e empinado, minutos antes de dizer algumas outras coisas, de dar-lhe as costas, e dormir. Marília trocara há pouco - só não sabia há quanto - o espanto pela contemplação e fora para além dos limites impostos por aquele quarto. Cega, novamente pedinte, para o súbito escuro de dentro de si mesma. Embora Nilson não mais lhe pesasse, ela, que se sabia apenas Marília, cria afundar-se porque pesados são os vazios e, de súbito, porque falsa era a sustentação que lhe proporcionava, ludibriada, aquela cama. Vista de um plano superior, com o seu olhar infinito voltado para uma pequena fenda na parede, ela diferia de uma crucificada porque, além de não ser um espetáculo público, não trazia seus braços abertos e suas mãos crispadas pareciam mãos protegidas por aquelas de outras mulheres banidas, reduzidas a tipos diversos de repúdios mas que não hesitariam, solidárias, em matar quem ali tentasse atravessar cravos. Era essa, se vista do alto, a impressão. Por outro lado, Marília também sugeria outras modalidades de tortura já que conservava os pés ligeriamente afastados e os braços, contra as laterais da cabeça, dobrados. Como uma letra X quebrada, indiferente à secreção semi-coagulada que se lhe escorria por entre as coxas, Marília pensava e seus pensamentos engarrafavam-se em imprevistos meandros, apertavam-lhe as têmporas por meio de, entre tantos, não pronunciados duplicar, preservar, transgredir, aceitar, trair, morrer, matar, partir. Não lhe aflorava, porém, perdido, o chorar. Náufraga em sua amargura, essa amálgama movediça conquanto áspera como um talho recente em tronco morto, Marília, sem discernir exatamente o por quê, pensou em Daphne. No entanto, ao invés de equivalente da glória, viu-se outonal, despida como iniquamente despem o espírito as grandes dores. Quem afirmara que são os tolos os mais sábios?, interrogava-se ironicamente enquanto lhe turvava a visão não o pranto, mas a inveja de não se poder transformar, qual Perseu, naquilo que almejasse, o mais cristalino e fustigante ódio, ainda que soubesse que, mesmo como um apanágio de deuses, tal sentimento, à similitude do amor, não decorre de um fato isolado. Teria, conhecendo-se, de deixar transcorrer o tempo, desembaraçar-se da dor, eivar-se com o orgulho e perseverar na elação. Aí, sim, estaria pronta! Lá fora, invertia-se, também às custas da lua, a maré enquanto Marília enxugava o rosto com o dorso da mão e, temulenta, descia da cama. Fundidos à tristeza, seus movimentos sugeriam fuga, adrede silenciosa qual o escapar em queda livre de uma rosa há muito sufocada entre as folhas de um grosso livro. Trânsfuga, evadiu-se para a varanda e sentou-se sob o luar. Em algum momento, tinha certeza, amanheceria. Durante muito tempo Marília assim o fez, o esperar, à noite, pela manhã. A certa altura, sempre, lá estava ela, mendiga, ávida, todas as noites dentro da noite enquanto o tempo corria. Eram cinco horas naquela manhã quando Marília acordou o filho e beijou-o, como sempre o fazia. - Vamos, levante-se!, disse-lhe ela, dirigindo-se para o corredor onde, por instantes, parou em frente à porta de seu próprio quarto. - Nada além, disse num tom de voz mais baixo, mais amargo, como se falasse para ninguém, de uma enorme distância. Algum tempo depois, já acompanhada pelo menino, pensou, enquanto fechava a porta da frente: - Ninguém pode, por certo, exigir eternidade, mas não se destrói desta maneira um encanto. Não é assim que se trata o amor, concluiu enquanto, acompanhada pelo menino, já fechava a porta da frente. Marília foi assaltada, enquanto dirigia, por um estranho pensamento, pensamento esse prontamente repelido em virtude do absurdo que encerrava. Repelira-o com tamanha firmeza que, apesar de não ter obviamente feito barulho algum, temeu ter acordado o menino que dormia no banco traseiro do carro. Ela imaginara a cruel possibilidade de uma borboleta, depois de percorrer campos e flores, ser injustamente obrigada a refazer toda a sua trajetória mas no sentido inverso; ou seja: do pouso sobre a flor ao ramo; do ramo à mutação em espremida crisálida; da crisálida à rastejante lagarta; da lagarta à pálida larva; desta ao ovo e, finalmente, ao nada. Preferiu, então, sonhar com uma doce Julieta que, debruçada por sobre um balcão e acariciada pelo veludo de palavras sussurradas, jamais pisaria tão cedo num cemitério ou numa Francesca, sobre um leito, nua, feliz, em Rimini, mas, por tudo isso, fora do inferno. Tomada por sensações até então raras em sua vida, Marília descuidou-se e, por excesso de velocidade, foi parada pela Polícia Rodoviária. - Bom dia, seus documentos, minha senhora. Posso saber, por favor, em qual lugar pretende chegar com tanta pressa e correndo tantos riscos?, perguntou-lhe o guarda, em tom repreensivo. Quero ver se consigo, policial, reencontrar a Marília que não é de Dirceu, nem do Nilson, nem de qualquer outro, mas que é e sempre será a minha Marília, respondeu ela a um atônito guarda, ambos parados provisoriamente no acostamento a menos de dez quilômetros da divisa interestadual, muito distante de sua antiga casa. - José P. di Cavalcanti Jr. - |
