Acaba de passar ao meu lado, na rua, um homem que se chama Fernando. É estrábico. Seus olhos apresentam uma estranha convergência que lhe confere um aspecto tragicômico. Além de impossível de não ser notado, o estrabismo exibe, à revelia, qual a mais preciosa peça de museu muito visitado, toda a sua introspecção. Sim, defeitos físicos comumente rasgam; têm lâminas afiadas. Eu não sei ainda, mas logo me contarão o que se passará com ele. Fernando trabalha, há doze anos, num importante escritório de onde raramente sai antes das dez horas da noite. Não o faz nem por afeição nem por ganho complementar e, muito menos, por acúmulo de trabalho. Ele simplesmente fica como um artista sobre um palco às escuras ou qual um beato que, após o culto e após jurar que não comete pecados, deixa-se ficar numa quase desesperada confissão. Fernando jamais explica suas razões e, quando interpelado, ou retruca com evasivas ou explode com acessos de raiva. De certa forma, tem razão: sua intimidade só diz respeito a ele, no que insta, exigente. Ele trilha desde sempre um caminho difícil, esforçado. De início, office-boy, para sempre clown. Brincadeiras e piadas mortais em alvo fácil. Buscara, inúmeras vezes, auxílio para a correção de seu problema, esbarrando, porém, no comum aspecto e impedimento de ordem econônica. Entretanto, jamais desanimara e tudo o que podia fazer era economizar de modo a levantar o montante necessário. Fernando cria que, livre daquela aberração, não só se libertaria do mal que lhe causavam como, também, compreenderia melhor todas as divergências de suas emoções. Até lá, consolara-se na época, forçando-se a acreditar que quanto menos pensasse no problema, menos sofreria e, por vezes, conseguia o seu intento: esquecia-se daquela sua esquisitice. Quem não se esquecia, lembrando-o, eram os outros. É verdadeiro e válido reafirmar que Fernando trabalha naquele escritório por hábito e por medo, sem dúvida. Ensaiara mudar, mas receioso de um novo começo, preferiu ficar. Ali já se habituara, e as piadas já eram velhas, contumazes. E, se havia algo que o incomodava, era a incompreensão de algo relevante: por que é amiúde torpe a perfeição, escolhendo os mais fracos para o seu alívio? Fernando é negativamente apontado por algo do qual é isento de culpa, mas que lhe pesa como um crime atroz e publicamente confessado. Ele nada faz senão sentir a sua alma como o ponto de convergência daquilo que não deseja, não quer. Como uma vergonha, sente-se rodeado por risos. Sua fragilidade exposta leva-o, então, a defender-se com o sonho, com a mentira, com a fantasia e ele, sem o necessário physique du rôle, interpreta o papel do Don Juan. Entretanto, isto parece sabido pois comentado, Fernando mantém-se fiel, nos últimos tempos, à sua namorada, muito embora ninguém ainda a conheça. Ela nunca dá o ar da graça. Eu não sei ainda, mas logo me contarão que Fernando, na próxima quinta-feira, chegará ao escritório com um estranho brilho nos olhos. Procurará, assim, seu chefe e solicitará um adiantamento de salário. Ficarei noivo na semana que vem, justifica-se. O dinheiro servirá para a compra de um terno e de um par de sapatos novos, acrescenta. E a notícia se espalhará como uma tempestade de raios. A agitação será geral. Não haverá outro assunto durante o dia todo a não ser aquele, o de que o vesguinho vai ficar noivo. Dito e feito, na quinta-feira, à tarde, Fernando sairá mais cedo do escritório. Ansioso, sairá às cinco horas e só voltará na sexta-feira, cheio de embrulhos. Sem se dar conta, estará sequioso por aprovação. O terno, preto, risca-de-giz, terá um belíssimo corte, todo em tropical inglês. Os sapatos, também pretos, serão um legítimo cromo alemão. Tudo muito caro, de fato. A distinção exposta. O respeito desejado, nem sempre obtido, porém. Fernando estará, na quinta-feira, orgulhoso por alguns instantes até que, por força do hábito, alguém dirá que o vesguinho vai mesmo se casar. Fernando sairá e guardará seus tesouros em seu armário. Eu não sei ainda, mas logo me contarão que na segunda-feira seguinte, antes que todos comecem as suas atividades, o gerente pedirá a atenção geral e comunicará - Proh pudor! - que Fernando teria sido internado numa instituição para doentes mentais. Eu não sei ainda, mas logo me contarão e não poderei avisá-lo, para que fuja, pois nem sei o seu sobrenome nem o seu endereço. Ele será surpreendido, no domingo, pelo vigia do escritório, no vestiário, dançando com a sua noiva: uma boneca inflável, vestida de noiva, dotada de todos o recursos à libidinagem, que ele guardara em seu armário, onde colocara seus outros tesouros - o terno e o sapato. - José P. di Cavalcanti Jr. - |
