Uma revista, creio que alemã, surpreendeu-me, há alguns anos, com a publicação de uma das mais belas e comoventes fotografias que já vi: com deslumbrante plasticidade e dentro de um enquadramento perfeito, o autor do instantâneo registrou, sem a menor possibilidade de recursos de intervenção, a morte de centenas de cisnes brancos siberianos em migração devido ao congelamento das águas do mar. As elegantes e infelizes criaturas morriam lentamente apanhadas desprevenidas durante o repouso, e confundiam-se com a impecável alvura do gelo. Triste repouso, contra o puro azul do céu, com seus pescoços recurvados e as cabeças sob uma das asas, as aves eram ironicamente alcançadas pelo fenômeno do qual fugiam e criavam, amontoadas em débeis trocas de calor, um efeito de calmo e terno, embora trágico, ondulado. Nada ali, contudo, denunciava que houvera desespero ou combate e a natureza extraía, indiferente à câmera, soberba beleza da tristeza. A despeito de ser terrivelmente lamentável, o fato parecia, sem dúvida, revestido da maior naturalidade. Demorei-me muito contemplando aquela triste fotografia. Diversamente, algumas páginas à frente na mesma revista, imagens de homens destroçados por outros homens em lutas inúteis não causavam, talvez por hábito, talvez por defesa, o mesmo impacto como se a trivial exclamação, mesmo velada, de um "mas que absurdo!" fosse o suficiente para anestesiar, em nós, os receptores de nociceptividade para a insensatez. Por que nos choca mais a nudez que a inanição? Que monstruosa e aviltante ambigüidade exige guerras para os nossos avanços? Quais perguntas dariam soluções, se respondidas, que eliminariam o medo que às vezes temos de nós mesmos já que o que questionamos não nos resolve os dilemas? Por que tantos se servem do poder de forma tão abjeta? Por que tanta ignomínia no exíguo espaço das nossas vidas? Mas... e se experimentássemos, a exemplo dos pobres cisnes solidários, um pouco mais de ternura para que nossas dores pelo menos nos parecessem mais breves? Continuaríamos frágeis, sem dúvida, infinitamente mais grandiosos, porém. Talvez, e sem pretensão didática, compreendêssemos o dito e o redito, não obstante pouco aproveitado, que não é a loucura que convulsiona o mundo, mas a consciência. Sendo assim, peço-lhes que saiam em busca e encontrem o rastro de Pégaso. Encontrem-no e sigam-no até a fonte Hipocrene. Em seguida, voltem molhados e ensinem a nós, hom=ns perdidos, quase enlouquecidos, o caminho da ternura pois sempre haverá tempo, esperança e oportunidade para melhores inspirações. - José P. di Cavalcanti Jr. - * Mundo maravilhoso, onde estás? ( Schiller )
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