Não a simpatia, Nathanael - o amor. ( André Gide ) Cada pessoa é responsável pelo mundo inteiro e por todos os homens. ( Fiódorov )
O sol caía na caatinga desfazendo-se em infinitas auroras distantes. Apoiada à janela, Maria nem sabia que contemplava a grandeza do crepúsculo, só comparável à injusta e seca tristeza que lhe habitava o peito. À exceção das cores celestes e do balanço da rede, nada se movia; nem mesmo a poeira. O menino já não chorava e Maria, a embalá-lo, começava a misturar-se à escuridão - vã fuga. Seu rosto deixava entrever apenas a resignação, patético sentimento com o qual lhe haviam impregnado a boca, a barriga, a vagina e a alma. Naquele instante, um milagre não seria capaz de fazer Maria diferente de mil outras Marias que ignoram que a única forma de evitar-se a dor é pela surpresa do amor, requinte excessivo em meio a tanta desesperança. Ela, como de costume e quase por instinto, reagia ao destino com a aceitação compulsória dos miseráveis, sem esboçar esforço de luta ou sequer de impaciência. Maria, em verdade, sabia que era o próprio combate. Os despojos cercavam-na; ou melhor, duramente a compunham. E Maria, a pia, embalava o menino no fim do dia. Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta. Menina casada, enlutada menina, Maria era bela, dramaticamente bela em suas tranças mal feitas, em seus pés descalços, nos absurdos da sua crença e no abatimento dos seus olhos. Entretanto, Maria era muito mais bonita sob o luar do sertão: foi quando ele a amou; foi quando ela sonhou. Conhecera-o sofrida, mas ainda encantada. Sem cessar, sempre ouvira dizer que quem esperava sempre alcançava, e ela esperara. O que ela não sabia era que nem todos os sonhos pertencem ao coração. Mas, casada, Maria cumpriu o prometido e, sempre à espera, viveu com ele na tristeza e na pouca alegria, sempre com a miséria e até que a morte o aliviasse. Ali parada, ilusoriamente separada da intensa penúria pela ausência de luz, Maria era - não por afinidade, mas por desgraça mesmo - pedaço da solidão que existia na grande paisagem vazia. Dos sonhos, ela só alcançara pequena parcela de fuga, e da espera, muita privação. Estranha alquimia. E Maria, a bela, iluminava o menino à luz da vela. Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta. Renovada pela força de infinitos crepúsculos distantes, a aurora encontrou Maria ainda apoiada à janela. Nada estava diferente: a mesma fome, a mesma aridez. Maria, igual a mil outras Marias resignadas com o que a sorte não lhes dera, nem lhes deixara ir em busca, conservava a expressão e a postura dos que precisam cumprir, como dever, a fatalidade. Podia-se imaginar que esperasse, pela incontável vez, algo que nunca compreendera. Seu desespero mudo tinha de ter voz. Sua compreensível incompreensão tinha de ter luz. Foi aí que a claridade maior jorrou por cima da noite e, depois de atravessar a aridez, invadiu Maria, que não mais embalava o menino. Maria havia compreendido que acalanto não serve para os mortos. Desde esse dia, então, nunca mais se viu essa mulher. Por todo o sertão conta-se a história de Maria, a santa, toda vez que embalando um menino alguma Maria canta: Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta. - José P. di Cavalcanti Jr. - ( Prêmio Martins Fontes - 1984 - Sociedade Brasileira de Médicos-Escritores - SOBRAMES/RJ )
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