Antonio navega no tédio. Busca nas calçadas já quase noturnas algum sentido, porém atraca na solidão ácida, corrosiva. Pisa com firmeza o caminho de concreto e nada lhe brilha sob as pálpebras, à exceção dos anúncios luminosos. Estes, não lhe indicam a direção certa das promessas maiores; ilusões, enfim. Não corrige o rumo, entra em sua própria noite como se o fizesse pela fenda de um espelho trincado e permanece no lado opaco, com a alma separada em duas metades: uma sonolenta, deitada; a outra, inimiga do dia. Por isso não se pode ou não se quer ver real, ofuscado. Todos os seus encontros também precisam ser assim, à sombra, pois já não lhe interessam mais os rostos. Muito menos as almas. Tem a sua fracionada, par. Portanto, por meio da fuga, finge libertar-se do tédio e sonha e atribui à escuridão o único veio rentável de prazer. Não lhe são necessárias nem as cores nem a luminosidade, que só lhe trouxeram mágoas; tinha os olhos avermelhados e estava claro quando o deixaram - ocasiões do sofrido cuidar-se e quando compreendeu que as chagas não são privilégios dos deuses. Antonio procura. Percorre avenidas e invade becos onde, por trinta dinheiros, compra hálitos nem sempre limpos mas, com certeza, mornos. De olhos fechados, já que gosta da noite mais escura, suga o que chama de Beleza - dor mascarada - e não a consegue preservar pois a perde no nojo de trinta pecados. Mente, quando afirma não saber que ninguém aprecia trair, principalmente a si mesmo, iluminado. Então, percebe que alcança um horizonte e, no escuro poente, quase mancha, teme cair do bordo do mundo, sobretudo, porém, em cima do sol. Encharca-se com a desesperança visto que, boêmio, a dilui na escuridão como se a enfiasse dentro da garrafa escuro verde musgo que o balconista apenas retirou, vazia. Mistura-se às imagens que o cercam e passa a amar algumas, embora não as queira; a querer outras, embora não as ame. Deixa-se sempre pousar, ferido, qual pássaro que se bica no arranjar das penas. Descuido ou advertência? Ora, nele tanto faz porque se aprofunda no isolamento, no ficar para trás, e, apesar de identificá-lo, fantasia o alarido da silenciosa solidão, seu grito maior, transformando-o no barulho de um carrossel. Cara diversão. Antonio fragmenta-se cada vez mais e, enquanto finge catar os pedaços, mais se perde. Cola-os desencontrados posto que o faz do lado cego e separa, agora muito, as metades de sua alma. Imita caleidoscópios: sempre brilhantes, sempre facetados, sempre fraudulentos. A noite já vai alta, pronta a agarrar o dia. Antonio caminha sob o mar, este em forma de quase amanhecida maresia, enquanto solta baforadas de encontro à bruma. Aspira-a, entretanto, profundamente pois anseia reter a noite, que pretende só sua. Atravessa a neblina e depara-se com o dia. Meu Deus, pensa, que náusea. Sentado e introspectivo, aguarda algumas horas em calada aflição. Logo que possível, compra tijolos, cimento, balde e espátula. Tudo o que pensa precisar para vedar portas e janelas. Apressado, volta para casa e, à espera de coragem, guarda tudo o que comprara. Entretanto, jamais, em momento algum, estranha o não a ter, a coragem, ele que, há muito, equilibra-se vendado, desprotegido, no arame, sem rede e sem aplausos. Antonio sempre deixa, nas ruas, sinais de seus avanços inúteis. Ignora-os, porém. Ultrapassou todos os sinais, fingiu de amistosa a reunião da qual tomou parte enquanto tentava apurar os ouvidos para entrar em conversas veladas com a mesma intensidade com a qual uma coruja aguça o olhar dentro do escuro. No entanto, Antonio não tem a flexibilidade daquele pescoço e muito menos a penetrabilidade daquela visão. Sempre e apenas percebe-se abandonado e retira-se com a velocidade das sirenas urgentes. Já em casa, num outro mesmo tempo, suja-se bastante de cinza enquanto prepara a massa, que deve ser forte o suficiente para que não a desmanche qualquer remorso. Inicia o trabalho e ergue cerca de meio metro de intransponibilidade, esta irmã gêmea de sua alma. Ergue e suja-se mas tergiversa, porém. Revel, combate a claridade com o sono e deita-se pela manhã. Embriagado pelo sofrer, dependente e apaixonado pelas horas apagadas, Antonio estranhamente não dorme muito, e levanta-se. Lava-se, como a isentar-se de culpas. Tem os olhos qual duas réplicas da face oculta da lua; o rosto, franzido. Insurgente, já o disse, há pouco desperto, ele senta-se ao piano e, em cromáticas volatas, confunde a palidez de suas mãos com o marfim ferido por nesgas da noite e, com inarmônica ansiedade, como se descesse num andante très expressif pelo tempo da tarde até um crepuscular pianissimo morendo jusqu'à la fin, ainda com ar reminiscente e romântico, dedilha, sobretudo na clave de sol, ao meio-dia, o Clair de Lune. |
