- O que se pode ver
ao piano -

( Para Jédison Maidana, amigo certo )



Obrigado pela visita!



Lembro-me,
embora já faça muito tempo,
do tempo em que,
sentado no banquinho giratório,
meus pés não tocavam o chão.
Sim, era o tempo acima do chão,
longe de marés altas e de preamares.
Meus pés, distantes do solo, distavam
ainda mais de meus olhos
ao contrário de minhas mãos.
Eu as via, reais,
e, contra uma palavra
que só mais tarde aprendi a falar,
invertidas, espelhadas.
A palavra era Steinway.

Eu gostava
especialmente daquela visão,
recordo-me.
É uma imagem viva
como um aroma de fruto,
um gosto de doce, uma maciez de flor.
Minhas mãos ao contrário e,
por trás delas,
mais ao fundo,
partes do meu rosto
que eu insistia em abaixar
para ver por inteiro.
Um rosto
e mãos de um menino
refletidos num piano Steinway.

Musicista competente,
minha mãe passou
o período de minha gestação
a dedilhar Schubert, Chopin,
Schumann, Brahms, Scriabin
e alguns outros
que ela mais admirava.
Disso, não me lembro,
conscientemente.
São, porém,
relatos verídicos porque,
além de os sentir na pele,
aquele piano sempre exerceu
uma inquestionável
atração sobre mim.
Sóbrio, era preto,
longo e imponente.
Quando aberto
em todo o seu esplendor,
levava-me a sonhar,
a imaginá-lo habitado
por seres
que só conheciam a Beleza.
Eu ficava, literalmente, boquiaberto -
(o que me ocorre até os dias atuais).

É engraçado mas recordo-me,
nitidamente.
Não há sombras
quanto ao que se refere àquele
piano imenso,
negro e brilhante,
sonoro, para mim,
mesmo quando fechado.
Suas notas eram e são vivas,
sinto-as em meu riso,
em meu choro.
Inúmeras vezes
companheira de palco
de um dos pianistas brasileiros que
mais tarde viria a encantar platéias
daqui e de todos os lugares,
minha mãe fez uma difícil e
sacrificada opção em sua vida:
escolheu-me,
e passei a ser
- depois também meus irmãos -
a sua enorme platéia.
Devo isso a ela
e sei que não tenho como pagar
preço tão alto.
O mesmo ocorre
com relação às amizades,
reais ou virtuais-reais,
que arrebanho ao longo da vida:
simplesmente não sei como pagar
e, talvez, por isso escreva,
relate fatos, envie poesias,
conte dores, narre perdas.

Algo que se aproxima
de uma experiência
cedo vivida quando,
certa vez, ao não conseguir
completar um quebra-cabeças
que tentava montar,
desfiz com irritação
o que já estava concluído.
Meu pai
pediu-me que me sentasse ao lado dele
e abriu um livro
no qual existia uma fotografia do Louvre
onde se via a Vitória da Samotrácia.

- Uma obra não precisa ser acabada
para encerrar Beleza -,

dissera-me ele.
- Isto permite o sonho, a imaginação -,
completara, então.
Ao mesmo tempo, minha mãe,
que se encontrava ao piano,
executava, como quem nada quer,
nada percebe,
a Sinfonia Inacabada, de Schubert.

Há um fato curioso nisso tudo.
E se mo permitirem, relato.

De forma absoluta,
guardo lembrança
da primeira música
que escutei com consciência.
Sentado ao lado daquela pianista
que me sabia escutando-a
na vida também,
ouvi o Impromptu nº 3
em sol bemol maior
(linda tonalidade),
de Schubert.
Melódico em seu cantabile
para um menino
que depois de homem
aprendeu também
a compreender e a gostar
de Bártok, Mahler,
Shostakovitch e Schönberg,
aquele improviso
jamais deixou de ser uma lembrança
que me acaricia
como se fosse uma pluma invisível
a percorrer uma alma em deleite.
Sim,
graças àquele improviso
tenho, amiúde,
uma alma em deleite.

E não só porque é Natal,
nem só porque o ano está a acabar-se,
e nem porque acabei de escutar
a melodia que me afaga
mas sobretudo
porque foi um período muito rico
no qual tantas pessoas
melódicas-cantabiles
entraram em minha vida
com seus afetos e qualidades,
seus momentos de prazer
assim como os de dificuldades
logo resolvidos
e re-executados em harmonias,
quero pedir-lhes
que assim continuem:
meus amigos,
harmônicos e dissonantes,
melódicos e atonais,
repletos de floreios e conclusivos,
tutti orquestrais ou pianissimo,
mas sempre amigos ad libitum.

Um abraço,
desta vez mais que especial,
frente ao espaço
que reflete o meu rosto de menino
agora acompanhado
e onde se lê Steinway,
cantabile,
improvisado em coro.




- José P. di Cavalcanti Jr. -











 
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