Lembro-me, embora já faça muito tempo, do tempo em que, sentado no banquinho giratório, meus pés não tocavam o chão. Sim, era o tempo acima do chão, longe de marés altas e de preamares. Meus pés, distantes do solo, distavam ainda mais de meus olhos ao contrário de minhas mãos. Eu as via, reais, e, contra uma palavra que só mais tarde aprendi a falar, invertidas, espelhadas. A palavra era Steinway. Eu gostava especialmente daquela visão, recordo-me. É uma imagem viva como um aroma de fruto, um gosto de doce, uma maciez de flor. Minhas mãos ao contrário e, por trás delas, mais ao fundo, partes do meu rosto que eu insistia em abaixar para ver por inteiro. Um rosto e mãos de um menino refletidos num piano Steinway. Musicista competente, minha mãe passou o período de minha gestação a dedilhar Schubert, Chopin, Schumann, Brahms, Scriabin e alguns outros que ela mais admirava. Disso, não me lembro, conscientemente. São, porém, relatos verídicos porque, além de os sentir na pele, aquele piano sempre exerceu uma inquestionável atração sobre mim. Sóbrio, era preto, longo e imponente. Quando aberto em todo o seu esplendor, levava-me a sonhar, a imaginá-lo habitado por seres que só conheciam a Beleza. Eu ficava, literalmente, boquiaberto - (o que me ocorre até os dias atuais). É engraçado mas recordo-me, nitidamente. Não há sombras quanto ao que se refere àquele piano imenso, negro e brilhante, sonoro, para mim, mesmo quando fechado. Suas notas eram e são vivas, sinto-as em meu riso, em meu choro. Inúmeras vezes companheira de palco de um dos pianistas brasileiros que mais tarde viria a encantar platéias daqui e de todos os lugares, minha mãe fez uma difícil e sacrificada opção em sua vida: escolheu-me, e passei a ser - depois também meus irmãos - a sua enorme platéia. Devo isso a ela e sei que não tenho como pagar preço tão alto. O mesmo ocorre com relação às amizades, reais ou virtuais-reais, que arrebanho ao longo da vida: simplesmente não sei como pagar e, talvez, por isso escreva, relate fatos, envie poesias, conte dores, narre perdas. Algo que se aproxima de uma experiência cedo vivida quando, certa vez, ao não conseguir completar um quebra-cabeças que tentava montar, desfiz com irritação o que já estava concluído. Meu pai pediu-me que me sentasse ao lado dele e abriu um livro no qual existia uma fotografia do Louvre onde se via a Vitória da Samotrácia. - Uma obra não precisa ser acabada para encerrar Beleza -, dissera-me ele. - Isto permite o sonho, a imaginação -, completara, então. Ao mesmo tempo, minha mãe, que se encontrava ao piano, executava, como quem nada quer, nada percebe, a Sinfonia Inacabada, de Schubert. Há um fato curioso nisso tudo. E se mo permitirem, relato. De forma absoluta, guardo lembrança da primeira música que escutei com consciência. Sentado ao lado daquela pianista que me sabia escutando-a na vida também, ouvi o Impromptu nº 3 em sol bemol maior (linda tonalidade), de Schubert. Melódico em seu cantabile para um menino que depois de homem aprendeu também a compreender e a gostar de Bártok, Mahler, Shostakovitch e Schönberg, aquele improviso jamais deixou de ser uma lembrança que me acaricia como se fosse uma pluma invisível a percorrer uma alma em deleite. Sim, graças àquele improviso tenho, amiúde, uma alma em deleite. E não só porque é Natal, nem só porque o ano está a acabar-se, e nem porque acabei de escutar a melodia que me afaga mas sobretudo porque foi um período muito rico no qual tantas pessoas melódicas-cantabiles entraram em minha vida com seus afetos e qualidades, seus momentos de prazer assim como os de dificuldades logo resolvidos e re-executados em harmonias, quero pedir-lhes que assim continuem: meus amigos, harmônicos e dissonantes, melódicos e atonais, repletos de floreios e conclusivos, tutti orquestrais ou pianissimo, mas sempre amigos ad libitum. Um abraço, desta vez mais que especial, frente ao espaço que reflete o meu rosto de menino agora acompanhado e onde se lê Steinway, cantabile, improvisado em coro. - José P. di Cavalcanti Jr. - |
