Com Salvatore Accardo e a London Symphony Orchestra regida por Sir Colin Davis, estou escutando, enquanto lhes escrevo, o Concerto para Violino e Orquestra, em Ré menor, opus 47, do compositor finlandês Jan Sibelius. Verdadeiramente transportado, o estado de graça coloca-me em asas de andorinhas, e penso em vocês, em todos os meus amigos. E qual seria a razão? O tema principal do primeiro movimento é uma melodia de trinta compassos. Mas, os três primeiros ( e ocasionalmente os quatro ) já evidenciam o elemento fundamental. Sibelius desenvolve este tema de maneira característica: ele o utiliza para introduzir uma cadenza excepcionalmente, aqui, mais cedo do que de hábito. Quando esta cadenza alcança seu fim, novamente o primeiro tema, dos compassos iniciais, conduz à discussão do material secundário, não menos importante, em si bemol maior e si bemol menor (maestria de gênio). Após este momento de alegria surpreendente, um motivo inquietante, descendente, nos é oferecido pelos oboés, trompas, cornes e cordas. E não se trata de uma ameaça vã já que, ao atingir o ponto de maior intensidade do movimento, a intervenção dramática dos trombones cria uma atmosfera de total desalento ( outro golpe de mestre ). Entretanto, e apesar de uma outra referência velada a este motivo de triste presságio ( oboés sustentados por flautas e clarinetes ), a crise é rapidamente dissipada. E tudo isso em allegro moderato. No adagio di molto o solo de violino anuncia uma ampla, bela e nobilíssima melodia que, logo após uma curta diversão, é repetida integralmente. Só que, desta vez, pelos altos, clarineta, fagote, oboés e violinos por sobre ricas e decorativas harmonias de outros instrumentos ( violino solo, entre outros ). O movimento final é notável por sua irresistível impetuosidade e verve as quais, efetivamente, transportam tudo e a todos com ele como estou sendo, agora, levado ao alto e de encontro a vocês. Arte! Sublime manifestação... Ah! e se carregássemos, romanticamente, com Arte todas as mortais ogivas?... E eu, aqui, como se voasse onde tudo é silente, transportado por minhas imaginárias andorinhas, vejo-os, em meio às modulações, a vocês todos, caros amigos, alguns flautas, outros violinos, aqueles baixos, aqueles outros a percurtir, os harmônicos e os que não estão consonantes porque, alhures, em buscas outras mas nem por isso menos caros... Conheço acordes dissonantes belíssimos... Enfim, tudo, em meio ao azul, à imitação da arte suprema que é viver, tendo amigos, meus poemas sinfônicos. E sinto-me feliz. Obrigado instrumentos, obrigado musicalidade, obrigado arte, obrigado vida, regente maior. - José P. di Cavalcanti Jr. - |
