- Borboletas
e
rosas brancas
da Pérsia -

( Para Alceu M. Denes, grande amigo )



Obrigado pela visita!



Para onde vão todas as asas em vôo?
De onde são oriundas?
Qual o seu liame com as lágrimas?
E qual a razão,
das embarcações que partem,
o humor parecer
misterioso e merencoriamente vagabundo?

À semelhança de um aerofotograma colorido,
riscado pelo cromatismo impreciso
e pelos cursos dos rios do mundo
vistos de uma grande altitute,
o meu rosto preenche
as dimensões do espelho.
Percebo-lhe, nitidamente, um adeus
com a perplexidade gerada
por uma espécie de estranho
Verzeiht mir, ich gehe weh!
do universo falso
de um também falso Werther,
não tão jovem e pusilânime,
nas pequenas rugas que despontam
e compreendo então
como se vinga a minha alma:
ela não se dobra, altiva,
e impõe-me o erodir progressivo.
Penso, bruscamente como um soluço,
nas línguas mortas,
no prenúncio dos diastrofismos,
no tremor alcoólico de um retratista fracassado,
no couro de velhas malas.


O horizonte?... Retilínea interrogação...
Não será ele bordo de um gigantesco pranto?


Vislumbro um outono.
Resultante das estações antecessoras
precocemente envelhecidas
- maldita sensibilidade! -,
cujas porvindouras presenças,
antes qual um Deus ex machina recorrente,
agora sei, serão mais frágeis que nunca
e nuas como as estepes.
Apenas balbucio um dolente Não!
e meus olhos fecham-se inutilmente,
invejosos das copas espessas.
Graças à aguda percepção,
lá estou, refletido.
O meu esboço de sorriso,
infrutífero ensaio de desembaraço,
traça, nos limites do esgar,
o desamparo de um estandarte rasgado,
vencido.


Nem missa, nem De Profundis, entretanto.


Não me alquebra a estética do pregueado.
Incomoda-me o preço que custou.
Injusto e egoísta, corrupto, impune,
cobrou-me, fraco, de chofre,
à vista, sequioso de cinzas.


Não são os deuses ilibados?
Para onde desviam a luz quando fica escuro?


Então, eu, traidor de mim mesmo,
vil cúmplice do caos que me transfixa,
verifico que me invade por inteiro
como uma brusca falárica
a essência inquietante de um questionamento
quase cruel de Verlaine,
malgrado a delicadeza
e as ricas rimas apiedadas:


Qu'as-tu fait, ô toi que voilà,
pleurant sans cesse?
Dis! qu'as-tu fait, toi que voilà,
de ta jeunesse?


E, pela primeira vez cônscio,
eu, que
nem inventei a Música nem a Poesia,
solfejo meu apenas descoberto canto triste:
desperdicei-me em quimeras
e arrisco-me a não envelhecer de amor,
que nem cheguei a compreender.
Também, assim,
não lhe alcancei o avesso:
o ódio.


Alhures, no fundo de minha alma, duelos.
Inúteis.
Que amarga e ilusa a sorte
dos segredos que não me secam as feridas!


Mas, e minhas paixões?
Algumas vigorosas,
não lhes reparei a ausência de ecos.
Como da água que murmura não ouvi,
submerso, o murmurar.
Ah!... Mais uma vez,
maldita sensibilidade!
Enfeitiçado e inábil,
lapidei-te com imperícia.
Consternado, acolho-te, então,
como meu fatídico Até tu, Brutus?
- menoscabado atavio.


Num átimo,
à similitude da melancolia,
cresce-me a sensação que só imagino
naqueles que,
impotentes, descortinam desastres.
Recordo-me da beleza do Grande Canal
na hora dos pássaros,
ferida por uma lancha veloz,
sob o olhar contemplativo e digno
da náufraga e ocre Veneza,
minha antípoda.


Pelos meus olhos,
ocre deve ser a minha alma.
Ocre é o esbatido crepúsculo.


Chega-me, assim,
também,
a silente acústica
dos despovoados anfiteatros gregos e
- viciado, quão viciado o meu devaneio -
pérolas sobre veludo negro é a imagem
que oponho à covardia de tudo aquilo
que tem a brutalidade de cortar,
em tiras, um coração.
Eu minto, eu tergiverso.
Viciada, quão viciada a minha dispersão.


Há de exister um outro canto,
lene.
Há de existir uma outra forma de beleza,
recuperável, melódica e,
portanto, susceptível de harmonia,
mesmo se dissonante.
É o meu único recurso.
Hei de conseguir,
qual uma gota de orvalho sobre uma pétala
- batido, porém terno leitmotiv -,
apenas desencadear
a singela intensidade do ato
e aguardar-lhe o retorno
como um gorgeio espera pelo eriçar de penas
ou como uma mão apoiada
sobre o espaldar de uma cadeira
acredita-se capaz de derramar-se.
Terei, então, - quem sabe? -
acentuada por uma fermata,
a cálida umidade das mucosas.


Não poderei evitar, entretanto,
as marcas.
Não tentarei, tampouco, escondê-las:
dar-lhes-ei o solitário destino
dos afrescos abandonados.
Afinal, nos campos de batalha, além da fumaça,
exibe-se uma enorme quietude,
análoga ao repouso.


Remota, anterior à observação,
a irrequieta refulgência de uma estrela
não acaba por enfeitar os olhos
com réplicas de minúsculos diamantes?
O tempo, de que lhe serve?


Indiferentes à forma,
não findam as águas por retornar às nascentes?
A amargura, de que lhes serve?


Quem acaricia as floradas?
Quem alastra incêndios e rege tempestades? Quem arruma trigais?
Quem transporta acalantos, encerra os acenos
ou ampara os volteios dos bailarinos?
Eu sinto a brisa.
A inércia, de que lhe adianta?


De Strauss, pareço ouvir o último canto,
entre o florido melisma de Frühling,
passando por todo o September
e pela calma repousante de Beim Schlafengehen
até o que há de sombrio em Im Abendrot.
Entrementes, revérbera, revel,
minha angústia, já redimensionada,
começa a ter a força dos elementos.


Ardiloso e enganador, porém,
o caminho para a coragem.
Reflexões desconexas,
à guisa de marcos desapiedados,
alusivas a uma aventura já fadada
mandriam por meus pensamentos e,
confuso,
embaralho, insensatamente,
manhãs e naus sem lastro;
um agitar-se de ramagens,
um tempo comum em 8/8,
dividido em duas séries de colcheias
e uma semínima abandonada
ou, de Barber, o Adagio;
o vibrar ensurdecedor de uma teia de aranha,
arpejos e,
stacatto,
a mais grave nota lá de um teclado,
espécie de inclinação para abismos;
uma entrega de lábios a nuvens que passam
e a inexistência de memória das chuvas;
sensações de déjà vu,
fontes de melancolia e jardins desesperados;
a maciez de fios de seda,
um corpo deitado e insinuante
e um projetar-se predominantemente verde
por encostas;
vinhos amargos e ametistas;
cantos gregorianos e sons de préstitos
com falares esquecidos;
um despontar de outubros
em meados de relvas de marços,
sonhos prementes e similares,
a universalidade de tudo o que flutua nos olhares,
um bater de dedos rijos contra portas que não se abrem,
a volta, depois do devaneio, a si mesmo
e o caráter original, absurdo e insaciável das solidões;
o disfarce das dores
no úmido reptar de línguas apaixonadas,
frases para não se ficar só
e mãos espalmadas de frangíveis esperanças;
o aprendizado dos risos e o piscar de vagalumes;
o desnecessário planejamento
para a sensualidade da malícia dos pecados,
um alarido de carpideiras, a temperatura do cetim,
reviravoltas, as horas de poesia, algum exagero lírico e,
no envelhecer das madrugadas,
o calor de um sol de meio-dia;
acinzentados sussurros de inverno,
agonias, leitos de rio e um lembrar,
corrediço,
de esquecer-se.


Apoiado sobre as duas mãos,
com a cabeça pendida,
experimento por instantes uma ânsia de evasão.
Água sou eu,
água corre de mim para mim.
Retém-me, entretanto, o suspeitar que tudo,
à exceção de meu corpo, oscila.
Meu corpo teso, porém,
apesar de esbraseado,
diferente dos pêndulos
e das asas molhadas das andorinhas.


Ergo o olhar e as mãos.
Procuro riquezas?
Mas imito os que se deixam ficar
diante de balcões de quinquilharias amontoadas,
grudadas e atropeladas umas por cima das outras.
Como se abrisse caminhos adstringentes,
encontro e revolvo ninhos desertos,
a feitura das pérolas, lamentos,
a vã altivez de minaretes desgastados;
folhas mortas
e um medo de fluxos passados;
solilóquios que voejam,
cantos de rouxinol e do partir,
sem o anúncio da ida,
o modo menor do que restou;
destinos nas entrelinhas do silêncio,
violinos apodrecidos e um tatear
entre a insânia e o bom senso;
quartos distraídos,
uma amarga impossibilidade de escolha,
tocos de cigarros e a evidência,
embora sob implacáveis lençóis de ilusão,
de um amor,
desde sempre,
maior que tudo quanto existe;
curvas que se entrecruzam, a arte das fugas,
bilhetes atônitos, botões macerados,
a face oculta de emoções e
a reticente pontuação de um perfil impérvio,
porém magoado;
o sopro das flautas, cabelos açoitados,
contracantos e o infinito,
conquanto imperceptível,
deslocamento de ar dos adeuses.


Perguntar, o quê?
Responder, como?
Exclamações disformes,
meus dedos percorrem-me as faces,
mas nada proferem.
São dedos dobrados, crispados.
Cheios de dores caladas,
de tempestades,
também não me falam os olhos.

Uma porta
ruidosamente choca-se contra o umbral...
Firo-me, taciturno.
Firo-me, contra as arestas de minha tristeza.
Por que, orgulhosa, não me grita a alma?
Por que não sangra?


Ansioso co-réu do silêncio
tento descobrir sombras que amenizem.
Porém, recuo.
Amendronta-me já a escuridão que encerro.
Dói-me.
Penso, tolo que venho sendo,
em pradarias ensolaradas.
Saberia eu que,
excluso de dentre aqueles que
por delicadeza buscam o fim,
meus lampejos de loucura
levar-me-iam ao que o sol não me proporcionaria?
O conforto me incitaria ao apelo, à mentira.


E a água escorre... corre... corre...
Nela, penso afogar
a traição atribuída às palavras duras
e a poemas incoerentemente abstratos,
quase suicidas.
Quero, a qualquer preço,
visitar o alívio que acredito existir nas lacunas,
mas me debato ao contrário de flutuar.
Fico entre um alguém definido
como tudo o que é amar
e o compte rendu de temidos porvires.
O que sou? Roupas em desalinho?
Quiçá anseios,
remendos de alma,
pegadas desfeitas.
Ou mais, uma imortalidade de ontem,
um riscar de fósforos,
todos os carinhos,
alguns apenas enfeitados por vasos fendidos
e lírios abandonados.
E o que dizer de ternura,
aos punhados,
na imensidão dos laços,
de embriaguez e de abraços incompletos?
Por que não alcanço o fim,
o fim deste questionar?
Onde, a irrelevância
de cartas amassadas, de vórtices, de luas cheias?
Onde, em mim, arabescos vazados,
afagos em mim mesmo
e despidas noites insones?
Deus, meu Deus,
quisera compreender a policromia,
o motivo pelo qual meus dedos
são rasgados por réstias de luz que,
uma vez alcançada
a fatalidade consuetudinária das despedidas,
atenuam-se, desprendem-se e morrem!
Por que ato e não desato uma felicidade natural,
um dar as costas, hábitos perdidos,
seres tortos
e caminhadas por sorrisos desmantelados e depravados,
ritos e respirar vicioso,
impressões digitais, bocas secas e desunidas,
mitos pagãos, sede, severidade e recordações foscas?
Por que, em mim,
residem súplicas de frescor
por imersão em marés, olhos mais que abertos,
aos gritos,
escotomas cintilantes, amores tresloucados,
a exploração de cavernas
e indeléveis cicatrizes?


Porque minto, porque tergiverso,
parece não me importar o que não encontro.
Extenua-me, porém, o delírio.


E a água escorre... corre... foge...


Lavo-me o rosto.
Gotículas que me lembram trinados,
apogiaturas, grupetos, mordentes,
floreios e portamentos.
Mas, as minhas tristezas não cantam;
têm o barulho das correntes submarinas,
do fluir do sangue.


Dos grous-da-mandchúria rememoro,
ínvido,
quase inerte e calado como numa prece,
a magnificência do vôo,
a majestosa vênia para a dança,
o fiel adejar e o dueto de íntimas promessas.
Áspera, a toalha.
Ásperas, as minhas mãos.


(Fica-se maculado, amiúde, pela beleza do amor,
ou daquilo que se lhe assemelhe.
Parece não haver coisa alguma a dizer-se.
Quer maravilhado, quer dilacerado,
trata-se
do mais honesto ensaio sobre o isolamento humano).


Choro-me dentro do coração.
É inútil esperar a compaixão do compungir-me.
Não me abandona.
É inútil esperar a compaixão da claridade.
Não me penetra.
Cristal de neve, não persevero.


Sofrem,
abertos em flores,
os dias nublados?
Buscam por arco-íris?


Sorrio, tímido e néscio.
Não existem trilhas verdadeiramentes nuas
para a alma.
Qual secas folhagens,
longamente expostas no alto e que,
estultas,
criam tudo poder ver,
também eu menosprezei
a imobilidade soterrada das raízes.


Dúbia, a condição humana.
Mais que dúbia,
portentosa, sedutora,
bela, iníqua, tirana.
Terei acoitado inimigos conhecidos?
Onde, então, as lutas?
Onde, os combates?


Um engasgo, um nó na garganta
evoca-me a areia das ampulhetas.
Talhante, o adentrar-me.
Pressinto que atravessarei a luminosidade,
agora tornada difusa,
de todos os abatimentos dourados.
Íntimo das avalanches,
seguirei,
sem no entanto o comando de um paradigma poético,
a densa e iniludível trilha
da rota desgovernada das poeiras.


Numa contumaz imagem,
borboletas fogem desesperadas de redes.
Desconfiam,
fatais Shéhérazades emudecidas,
sem o recurso sequer do grito,
de seus destinos alfinetados?
Por oposição à impotência,
como se encarregado da vingança,
deixo que me assalte sutilmente
o ímpeto de oferecer-lhes
braçadas de rosas brancas da Pérsia.


( Por favor, não me condenem.
O fato é que,
sem isso,
quedo inerte, transfixado,
e odeio alfinetes
e ando só nesta multidão de amores ).
Sei que não mais existe Pérsia e que
rosas brancas também apodrecem.




- José P. di Cavalcanti Jr. -










 
Texto 12 - Copy & Copyright de todos os textos: José P. di Cavalcanti Jr.


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