- E o dia estava quente... -

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O calor estava insuportável. Um daqueles dia em que a gente pode até perder a paciência com quem nos disser apenas bom dia. Tudo só por causa da irritação provocada pela alta temperatura, pela sudorese, pela sensação que nem dez mil banhos resolveriam todo aquele mal-estar. Enfim, um dia de cão, feito pelo próprio e para o próprio, e, pior, meu automóvel na oficina, em revisão.


Todos os meus familiares ocupados e, sei-lá-eu o motivo, ausência total de táxi na cidade. Não passava um que fosse, da marca que fosse, do ano que fosse. Cansado, resolvi após algum tempo: iria mesmo de ônibus. Ao menos - minha esperança -, com a janela aberta, entraria algum ar que circularia à minha volta, à volta daquela tarde parada, quente, tremulante.


Então, a surpresa. Logo, aquela se transformaria numa das viagens de coletivo mais inusitadas e interessantes que já fiz em toda a minha vida. Gratificante, de fato, e isso, em virtude de uma jovem estudante de 13 anos. Isso mesmo, apenas uma menina de 13 anos - (perguntei-lhe a idade, mais tarde, porque se tornou irresistível a minha curiosidade).


Sentado numa poltrana lateral, eu formava um ângulo reto com duas meninas, sendo uma delas a que citei acima, de 13 anos. À minha frente um rapazinho, provavelmente colega de classe das duas garotas pois conversavam. Discutiam sobre provas, aulas, professores, sobre assuntos relacionados a eles próprios e à vida colegial; enfim, conversavam sobre muitas coisas - uma conversa típica entre adolescentes em final de ano escolar, tão típica quanto seria o conversar entre pessoas daquelas idades em qualquer parte do mundo. De repente, o rapaz dirigiu-se a elas e perguntou-lhes o que fariam durante as férias que se aproximavam, o que esperavam que acontecesse. Uma das meninas, então, citando um balneário próximo, disse que iria para Iriri com a família pois ali tinham uma casa à beira-mar. Continuando, animada, disse ainda que esperava divertir-se muito, dançar, paquerar e encontrar muitos "gatinhos para ficar" já que havia "ficado" pouquíssimo o ano inteiro por causa da pressão de seus pais para que se dedicasse mais aos estudos. Como vêem, eram apenas jovens a caminho de casa após as aulas e que conversavam sem maiores preocupações. Lembro-me, inclusive, que fiz comparações entre o falar daqueles jovens e os falares de gerações outras, por exemplo, como o da minha própria, com muitas de suas gírias e de suas expressões já em desuso e das quais nem eu mesmo me lembraria, provavelmente. A outra mocinha, a que depois disse-me ter 13 anos de idade, permanecia calada. Dos três, dava a impressão de ser a mais introvertida, a mais tímida. O rapaz, a certa altura, dirigindo-se a ela, perguntou:


- E você, vai fazer alguma coisa? Vai viajar ou vai ficar por aqui mesmo?
- Não sei ainda, respondeu-lhe ela, mas espero muita coisa dessas férias.
- O que você espera, por exemplo?, prosseguiu ele.
- Para falar a verdade, eu espero "insuputáveis" possibilidades, ela respondeu-lhe com um ar sonhador que acredito que jamais verei novamente a não ser que eu encontre outra menina de 13 anos que esteja à espera de possibilidades "insuputáveis" durante suas férias.


Ali, dentro do ônibus, olhei para aquela menina e senti alegria, muita alegria.
- Quantos anos você tem, minha filha?, não resisti e perguntei-lhe.
- 13 anos, respondeu-me, antes de acrescentar uma pergunta muito lógica.
- Por que o senhor quer saber a minha idade?
Encantado, respondi-lhe:
- Por nada, nada em especial porque de fato especiais, aqui, você e a sua "insuputável" expectativa. Meus parabéns.


É claro que ela me compreendeu. E eu, que, hoje, não me recordo se o ar circulou dentro do ônibus como eu gostaria que o fizesse, esqueci-me de quão quente aquele dia estava.




- José P. di Cavalcanti Jr. -










 
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