Como construir este adagio? Que pergunta mais vaga... sem propósito. Entretanto, uma pergunta, entre tantas. E, no entanto, qual Schumann, entre o Nicht zu schnell e o Sehr lebhaft, desperto-me bem cedo, lá menor, Langsam. Pronto, eis-me aqui, pizzicato, adagio di molto. Tenho meus olhos abertos. Luz da manhã em minhas retinas. A cegueira transitória. Ficam apenas os sentidos poupados. Excessiva, esta luz, porque a brisa que vem do mar agita o fino tecido das cortinas, permitindo-a sem pudor. Porque marítima e também despudorada, é uma aragem sensual, quase cálida neste amanhecer de às portas do verão. Sem lembrar-me e porque me ardem, meus olhos recordam-me de minhas pálpebras e pisco-as. Sim, eis-me definitivamente pizzicato, a marcar o tempo. Langsam, é o que me determina a alma. Este é o caminho para o adagio. Espreguiço-me. Sou cordas, sou cello. Sou madeira que chora, que geme. Sou mais... Serei arco que desliza, qual a luz, qual a brisa. Apenas espreguicei-me e esta cortina, espécie de Salomé feita odalisca sem corpo, clama por minha cabeça, apenas com véus. Clama e dança, ali, frente ao início do dia e morte da noite. Frente ao meu espreguiçar-me. Volteia, eleva-se, tremula, torna a cair suavemente, insinuante. Observo-a, amante. Eu, moroso e quase triste, observo-a lasciva e leve, tímida e prostituída, oferecida às carícias, hiante. Saberia, ela, a perversa irresistível, que estou despido, completamente nu? Saberiam-no o dia infante, a brisa e a luz como o soube a desesperada noite apenas desaparecida? Pergunto-me mais estas perguntas sem respostas, minhas eternas canções sem palavras... Ah! Mendelssohn, sou adagio, afinal. Olho para o lado. É um corpo. Um corpo de mulher. Mais que isso, é o corpo da mulher. Daquela que se quebra em ondas, que, vaga, açoita rochedos e varre inscrições tênues da areia. Daquela que me banha. Sim, um corpo. Olho e vejo a curva que se insinua desde a cintura até o início da coxa. Este corpo, em decúbito lateral, com uma das pernas levemente fletida e a outra esticada, tem esta curva. Convite, não há corpo que não seja belo neste reduzido espaço. Contudo, aquela curva naquele corpo tem algo de incomum, algo de único: pizzicato eu, amiúde lá repouso meu rosto embora ali também dê início ao que rouba a paz dos bacantes, das ninfomaníacas, dos incestuosos e cafajestes do Olimpo. É quando, tutti orchestrale, somos, eu e aquele corpo da mulher, a investida dos aríetes contra fortalezas antes inexpugnáveis, a ondulação sinuosa dos furores de Netuno, o enlouquecer das Fúrias e dos Sátiros. Eros e Psiquê, com chuvas, dentes e brisas, somos, para os tolos e atônitos, o nascimento das cordilheiras. Tolos, sobretudo, sim. Não percebem eles que aquela mulher, apesar dos cumes elevados, tem, ao olhar-me, olhos tão lindos, sonolentos, como se pescados no fundos dos mares. Mas sou adagio. Sou cello. E tenho madeiras em mim que choram. Sou mais... sou arco... e minha música amanhece diante da visão daquela curva. Daquela, especificamente. Única. Ímpar. A manhã é cromática. Também o é o meu movimento. Compasso, notas e pausas... Sim, pausas... Quando mais choro, quando mais geme a madeira... Clave de fá, é aquela descida, o escorregar de encontro à modulação. E lanço-me no precipício porque me apraz voar. Invaginando, é quando sou alado. Cessa a brisa. Já não se insinua e nem mais deseja a minha cabeça a Salomé tresloucada. É dia pleno. O sol, másculo, promete inclemência e longe está a lua que, ao longo da noite, cobriu-me de prata a nudez. Afogada, Selene. Abraçado àquela mulher, aquela que possui a curva única, clave de fá e ponto de amparo, prolongo-me, perpetuado qual notas em legato. Com uma das mãos, envolvo-lhe um dos seios como um arvoredo por sobre as sombras. Com a outra, deslizo o acariciar pelo precipício onde começo meus vôos até alcançar o encontro das coxas. Sim, tudo appassionato. Ali fico, ali faço correr o arco que me compõe, ali sorrio, pizzicato que sou, mas muito mais choro porque sou cello, sou madeira que geme. Antes e depois do amor, sou adagio. Ad libitum. - José P. di Cavalcanti Jr. - ( Tela de fundo por Letícia Bergallo ) |
